quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um Fio

(Frente e Verso)

Estou guardando um fio de cabelo dentro do chapéu que nunca me serviu. Dentre tantas coisas abandonadas, esse fio foi encontrado por mim, bem debaixo da minha cadeira. É longo demais para ser ter nascido na minha cabeça, e preto e espesso o suficiente para soar estranho a qualquer morador da casa que, por ventura, possa ter, digamos, passado por debaixo da minha cadeira em algum momento. Durou pouco minha primeira impressão, a de que esse fio de cabelo fosse o fio da vida, rompido em estaturas indeterminadas, fio de tecidos combinados no estômago do engolidor de figurinos seria algo mais específico, e não condicionado a esse encontro tão improvável quanto encontrar qualquer outra coisa debaixo de coisas abandonadas. Não porque seria triste demais constatar que o fio da vida possa ser apenas um fio de cabelo. É que esse fio de cabelo que encontrei é uma boa companhia.

(Um fio "Do mais excruciante Dezembro", um livro fictício, 2014)

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