quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cair com o corpo


Eu estava andando, e do nada comecei a tropeçar. Até cair de vez com o corpo no chão. Caí e comecei a rir da situação, o tom de voz grave e indiferente. Mas o riso me tomou emocionalmente, e eu comecei a chorar, até congelar numa gárgula sem fôlego derrubada da proa. Fiquei observando a aproximação dos predadores que às vezes uivam ao redor da cegueira, mas às vezes uivam ao redor do cego. Fogo e gotas de raio cinza e pelos compridos espatifaram ao redor. Caído com o corpo sobre cacos de vida. A poeira que não duvida do vento entra na boca, e atravessa agora nesse relógio de areia. Eu já mastiguei chiado numas palavras tantas vezes, que estar caído com o corpo não está mais me contorcendo com arrepios. Mesmo que do nada se mostre uma coreografia, o bailarino só entra em cena quando cai. Quando aprende a se equilibrar e caminhar pela primeira vez ainda não se deu conta de que não aprendeu a desequilibrar e cair. E fica em cena, andando, com o corpo caído no chão. 

Abril, 2015

terça-feira, 28 de abril de 2015

Repetição do gesto cravado na faca


APARIÇÃO DA REPETIÇÃO
O corpo de sondas e sendas no chão sem firmamento
pensa derramando ramalhetes de raios.
E quando apela ao crime desorganizado da arte
faz sombra de sexo no centro das costas.
As suas interrupções são os seus acontecimentos,
Levanta o braço e mostra o gesto cravado na faca.
E repete aquele gesto cravado na faca.

PRIMEIRA APARIÇÃO
Ela é uma mandala de pétalas.
Um arranjo floral de formas,
Em dobras, a inocência de rugas.
Pendurado na ponta imperfeita
Dos galhos mais finos e lisos,
E conduzida pelos pedais de vento.
Insetos de fumaça nas unhas humanas
Agarram com ferrões de açúcar a xícara.
O dia estava alado com noites
Desde os primeiros minutos.
E ali estavam os seus músculos
De líquido anímico e zês vazios.
Mas qual era o plural de zê?
Levanta os braços e mostra o gesto.
E repete aquele gesto cravado na faca.

SEGUNDA APARIÇÃO
Ele chora contabilizando ocorrências
Ele estava organizando uma linha
Nessa semana começou algumas coisas novas
Como congelar uvas e manipular repelentes.
Ao olhar o retrato dos novos ídolos
Todos já eram cadáveres
Chapas de radiografia
Fóssil retratos sorrindo
Nas sacadas do fim do mundo.

CONSTRUÇÃO DA APARIÇÃO
Aquele corpo repete o gesto
E levanta poeira cravada na faca.
Levanta o braço e mostra o gesto,
E completa a cerca elétrica ao redor.
E a primeira história daquele período
Arranca uma desilusão com a faca,
Deixando uma abertura no espelho:
Espinhos sem foco costurando nitidez.
Levanta os braços e mostra o gesto.
E repete aquele gesto cravado na faca.

(Abril, 2015)


APRESENTAÇÃO DE UMA ESTREIA EM CURITIBA


Ensaio

O novo trabalho se chama Ótima Ideia. Fiz a encenação desses textos que venho escrevendo. É um monólogo e eu já estou aqui. Nesse lugar o nível de risco é tão elevado quanto o nível de preocupações, o que prescinde da criação das unidades de medida específicas ao porte fantasmático das ilusões, um deslumbre obstinado e infantil pela respiração concreta da plateiaO desperdício na compra de almas também exigiria um estudo de caso mais específico sobre a magia na arte das ações que conduzem em teatro. Diversos interesses levaram a isso, interesses não, mas várias coisas que se repetem, que se propagam nas temáticas faustas e mefistas cravadas vivas na maquinaria teatral, da qual o ator é um dos funcionamentos, e um dos desfuncionamentos, com o punho levantado na pronúncia de algumas palavras, dentre aquelas que me influenciam a cometer algumas escolhas. 
Uma das escolhas é o trabalho com o humor, inspirada nos números de Andy Kauffman nos anos 70, e se refere (mais do que trabalhos mais recentes na mesma linha) a umas motivações da criança velhinha palestrante. Ela às vezes vive em algumas palavras e revive desde as minhas primeiras cenas de teor autopsicográfico, nos duplos atados nas pernas da cena, gesticulando como braços pendurados. A TV de ídolos sonoros, a dança de cartas lacradas do poder, e o encantamento pelo qual se acaba tomando responsabilidade através da construção de contrastes. 

 "A personalidade é uma das palavras chaves da frase feita. Enfia a palavra chave de uma frase feita na parede, para ela atravessar a parede como se fosse uma ponte. São chaves em formatos de palavra que não fazem frase. Quando eu digo ponte talvez porta fosse mais condizente ainda do que fonte. Enfia a palavra chave de uma frase feita na parede, atravessando a parede como a palavra chave numa frase feita. São essas chaves em formato de palavra que não fazem frase. E o silêncio dessa personalidade televisiva é a sintonia ssssshhhhh... Parece uma personalidade vazia. Uma personalidade de massa vazia. Uma personalidade de massinha, televisiva. E tem mesmo cheiro de massinha. Cheiro de uma personalidade de massinha. Uma personalidade nua. Só que não está nua. Ainda não saiu nua. Ela atua. Ela atua. Uma personalidade de massinha que não está nua. O tubo de alta tensão ainda não foi desnudado nessa personalidade. E mesmo trabalhando tão bem estas palavras chave, o cheiro que elas exalam já está insuportável." 

Personalidades de massa, personalidades de massinha. Imitação de personalidades, efeitos psicotrópicos do tempo sobre a repetição, sufocamento de ambições acadêmicas. 2004, 2005, 2012, 2015, anos noventa, anos oitenta, anos sessenta, anos vinte. Movimentos de séculos numa resposta (muitas vezes frágil como papel desamassado, que na forma de um espelho velho e quebrado que quer cravar o olhar-ameaça e presença de autoridade do lado de dentro e do lado de fora da ferida) ao tempo morado em Bauru, ao tempo morado em Curitiba, às mortes dos nascimentos no período anterior a esse, e aos desmascaramentos gloriosos das primeiras insatisfações nos contrastes encantadores dos reflexos do que se chama consumo.

Como esse risco reage ao outro risco, que por algumas coincidências pode o englobar, que é participar do Festival de Teatro de Curitiba, em meio aos quase quatrocentos espetáculos que integram o Fringe? Com a imprevisibilidade decorrente da impermanência iconizando e ironizando a mim, a você, e a todos, e a tudo, como personagens ou porcentagens de uma coreografia idiossincrática com baixa saturação de coragem (cores nos olhos). Até aqui o rebolado expressionista de si mesmo levantou a poeira dos gestos de memória livre. E grudou na pálpebra de algumas pessoas que choraram copiosamente. Fique atento e à vontade diante da história ambígua e cenográfica da venda e da compra da minha alma.  

A peça volta à Curitiba para única apresentação no dia 21 de Agosto. 

Límerson Morales
poeta-xamã/encenador teatral
Abril, 2015


Ótima Ideia

Texto e direção - Límerson Morales
Direção de produção - Felipe Chaves
Site do grupo - http://quiinvitati.com/
Fotos da estreia - Solomon R. Plaza

Apresentação única no dia 21 de Agosto

Teatro A Fábrika


Rua Fernando Amaro 154
Alto da XV
Curitiba, PR



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