quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cair com o corpo


Eu estava andando, e do nada comecei a tropeçar. Até cair de vez com o corpo no chão. Caí e comecei a rir da situação, o tom de voz grave e indiferente. Mas o riso me tomou emocionalmente, e eu comecei a chorar, até congelar numa gárgula sem fôlego derrubada da proa. Fiquei observando a aproximação dos predadores que às vezes uivam ao redor da cegueira, mas às vezes uivam ao redor do cego. Fogo e gotas de raio cinza e pelos compridos espatifaram ao redor. Caído com o corpo sobre cacos de vida. A poeira que não duvida do vento entra na boca, e atravessa agora nesse relógio de areia. Eu já mastiguei chiado numas palavras tantas vezes, que estar caído com o corpo não está mais me contorcendo com arrepios. Mesmo que do nada se mostre uma coreografia, o bailarino só entra em cena quando cai. Quando aprende a se equilibrar e caminhar pela primeira vez ainda não se deu conta de que não aprendeu a desequilibrar e cair. E fica em cena, andando, com o corpo caído no chão. 

Abril, 2015

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