sábado, 5 de setembro de 2015

Uma crônica de riso

Aquele dia que eu acordei e abri os olhos para todas as coisas que estavam nos mesmos lugares e todas elas estavam em algum lugar. E era no mesmo lugar em que estavam antes do sono, só que elas estavam engraçadas.
A primeira delas foi o teto estúpido do quarto, que eu olhei e comecei a rir. Levantei e fui caminhando até o banheiro, rindo da maneira como o meu corpo se movimentava, como eu ria quando sentia o peso da roupa na pele, e como me equilibrava num deslocamento engraçado pelo espaço. Engraçado foi quando me olhei no espelho, e vi o movimento do meu corpo dando risada. Não era um sorriso diante da vida, que pena. Era uma série de contrações espasmódicas perturbando a respiração, comovendo os músculos faciais, que bom.
Fui tomar um banho frio, e foi um grande erro. Chorei de rir até sentar no ralo. Minhas pernas se mexiam fora do meu controle, como se fossem outras pessoas tendo crises independentes de riso. Consegui desligar o chuveiro, mas antes do silêncio, tudo o que eu escutava era o som da minha gargalhada. Me vesti bem rápido pra não rir dos detalhes vermelhos no azulejo do banheiro que paraciam umas bolinhas de sangue escorrido, que eu poderia ter expelido de tanto que eu ria.
Era uma casa muito engraçada, a que eu morava. Não tinha a memória de nenhuma música consagradora, mas sons de mola e alarmes sugestivos no ouvido. Nas condições em que eu me encontrava qualquer interação humana, animal, vegetal, material e imaterial, provocava em mim esses fluxos de gargalhada.
Toda a inutilidade, toda utilidade, toda ausência de sentido, toda construção de sentido, todas as vozes, todas as formas, todos os gestos, todas as embalagens de todas as essências de tudo, e todo o restante, tudo provocava em mim esse riso de frenesi respiratório. De cuspir perdigotos e lacrimejar quente a potência da vontade.
Eu chorei de rir com a cara na tua barriga, você me abraçou com as pernas para acalmar os espasmos. Continuei rindo de umas contrações e de um leve adormecimento na região da nuca, entre o pescoço e a cabeça (quando eu escuto essa palavra eu dou risada, cabeça). Achei engraçado eu ter retomado o controle da minha respiração, mesmo depois de ter passado por tudo aquilo na sua frente. Todos os nervos estavam em outra frequência. E eu rio até agora quando eu lembro, se eu não relaxar e não ficar atento.

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