sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Solidão

Ele personificava objetos, 
como a escrivaninha, por exemplo. 
Ele também objetificava pessoas, 
inclusive a escrivaninha que ele tinha personificado. 
Mas não por muito tempo, porque ela era uma escrivaninha muito gente boa. 
E ele era apenas um cortador de unha.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O desejo do personagem

O personagem não entende quando o corpo ri. Quando o corpo ri o personagem começa a desconfiar, e vai parando de rir com os olhos. O personagem percebe o rumor no corpo rindo, o rumor vindo do ator, que sabe aquilo que o personagem quer. O ator não sabe direito o que ele mesmo quer, o personagem não sabe direito o que ele mesmo quer. O ator sabe o que o personagem quer, mas o personagem não sabe disso. Menos quando o corpo ri, quando o corpo ri ele não entende, mas começa a desconfiar.

vide


video

minha águia toura
eu não finjo
eu mesmo
você destrói
começo
com seu avesso
de sangue

eu agradeço

terça-feira, 10 de maio de 2016

Música prazerosa

O prazer nos escuros da falha
Dilacera os escudos de cera

Desfazer o cerume da fala
Os cabelos ondulam de ombros

Desonestas espumas de sangue
Pelos escombros surdos da sombra

Estes sons desembrulham segundos
De prazer nos estudos do faro


sábado, 2 de abril de 2016

Marcel Duchamp e os sonhos com pátios





Sonho até hoje com o Sesi 358 na Rua Rubens Arruda. Ouço o pátio e os seus muros com altura de buracos, os rumores de saídas antes do horário, os portões para atrasos, os tropeços em escadas. Um conjunto de lembranças que até parece uma serigrafia. Uma impressão cromática implacável, urdida das realizações de Marcel Duchamp. É como grandes casas de concerto poderiam ser através do qual se caminha até o cansaço, até matar a sede incansável. Não há o que fazer com o incansável. Em todo caso estou indo até o bebedouro, deixando bem claro para mim mesmo que eu sou um adolescente cheio de afazeres e dedicação, em meio ao aproveitamento geral da vida, vislumbrado tardiamente quase como um eco. Sempre preferi falar como um saco de batatas, ao contrário do som inalcançável do que se tornou ser um homem. Mas o medo é uma incandescência. A memória é um Waly Salomão de edição. Ainda não adaptei O Ateneu para uma grande instalação sonora, o argumento ainda argonauta. Minto, amo argolas douradas ao longo de gargalhadas de mesa. Mas admito, seria bom nunca ter cobrança. Daria até pra passar fome.



Pesquisar este blog