segunda-feira, 16 de outubro de 2017

?



Quando estarei sozinho no quarto, não o meu quarto nem o seu, que tipo de ajuste arquivista farei para me distrair com a incompletude das entranhas

Quando eu vou ser a noite temperada, beijando onde as brisas dormem e doem ao barulho de chuva nos seus lábios

Quando atravesso a cidade chuvosa o vento sente sede, arrastando sons de folhas secas e fios descascados de uma antiga telefonia

Quando as tormentas serão a fumaça que arrepia os pulmões, além de fotografias saudosistas inconvenientes, com penteados estilo espelhos funerários

Quando vamos conhecer o litoral dos seus sonhos, onde tudo acorda próximo da morte ou da impressão dançante de uma euforia nos seios

Quando eu encontrar partes de pedra no meu corpo arrancarei punhais dali, ao longo de uma infinidade de unidades de medida adotadas em casos sísmicos

Quando essas perguntas fortalecem o pulso da submissão nos limites da deusa pálpebra ainda chorarei acessando as mesmas memórias, cheio de cegueira


Quando você entrou por uma passagem secreta que ainda não tinha sido inventada, onde crianças perdem os órgãos e agora brincávamos de não nascer

?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Nas casas não domesticadas


Quando você passa
O pé na minha perna
Tudo para de sair do lugar
Por um tempo terrível e real
Coloco todos meus nervos ali
E as fotografias vão surgindo
Do meio das roupas mofadas
Que se tornaram domingos
Por volta das sete da noite
A ausência de silêncio na beleza
Esconde e cansa a beleza
Quando a palavra “gostoso”
Sai da sua boca pela minha
Convoco todas as glândulas
Cantoras de alguma língua
Lendo textos incompletos
Desses que os músculos pasmam
Movendo membros fantasmas
Ao reconhecimento de vozes
Mas tudo o que sei dos reflexos
Está correndo igual cachorro
Vermelho igual coelho
Nas casas não domesticadas

Por incompletude amorosa.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ESCUTE

não saía nem sangue do buraco na sola do pé. nem em um músculo dentro da pele, nem uma minúscula dor doía. nem dentro e nem além. nem a tensão no pulso direito vinha dali. nem a conversa fiada dos homens de confiança passava por ali. nem uma planta silvestre ou um animal selvagem vigia os seus gestos dali. a terra mesma evita acoplar qualquer apêndice natural naquele furo da sola do calcanhar. tenho mesmo passado os dias a observá-lo, apontando com o dedo de um cão para o que seria uma jaula, e as estrias híbridas de todos os felinos. e esses riscos de todas as épocas, quando reconhecem ou correspondem às pretensões do rosto feminino, que não se especifica da vida ali dentro com somenos importância. não sei se quando se alcança é isso, eu não sei, eu não estou te escrevendo mais. mas escuta você também se o chamado da queda não está vindo dali.

domingo, 6 de agosto de 2017

PROFUNDIDADE



As profundidades da ficção estão vulgarizadas pela noção de uma autoridade preparada para a bofetada. Vamos invaginar as superficialidades. Não falo apenas de poros e halos mais arejados de erosão erógena, mas admito que tudo o que eu disse até agora é atravessado de erosões em desejos desconhecidos, explorados insuficientemente ou inacessíveis em meio ao desfrute das multilateralidades. Cortes aprofundados em segmentos da carne ainda pouco acessados, pele ruidosa de árvore ancestral que brilha tomba brilha. Acordar o furor nos furos e os desdobramentos das palmas das mãos. Mérito, em qualquer instancia, é um palco para bofetadas burlescas. Muita coisa ainda é sobre autoridade e bofetadas burlescas, e ainda estamos pensando assim nisso.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Para o pulmão bater as asas



para o pulmão bater as asas
primeiro:
é preciso ver o pulmão
o pássaro é pulmão
da cabeça aos pés
não silencio sobre isso
não escrevo uma vírgula
se as praças dos bairros
levantam o concreto
encontro das ruas
para o pulmão bater as asas
primeiro:
o amor é um pulmão
sendo respirado
vivo ou morto
não silencia sobre essa
escuta não estrita de escrita
para o pulmão bater as asas
vivo ou morto

(IMAGEM - Miro Spineli )


terça-feira, 20 de junho de 2017

OS PORMENORES VÃO FICANDO CADA VEZ MAIORES

Foto - Marcos Piva


Escrevo sobre uma nova performance, um ato que realizei no dia 17 de Junho, e que até então tenho chamado de Fala Fônica. Apesar disso, não escrevo sobre a performance Fala Fônica, que não foi realizada no dia 17 de Junho. Dia 17 de Junho não aconteceu a performance Fala Fônica. Apesar disso, escrevo sobre o dia 17 de Junho, quando o ato de fala preparado para afiar palavras cegas com palitos de fósforo na boca confundiu-se com um inesperado risco em que esteve em jogo minha integridade física. Mas está tudo bem, foi dia 17 de Junho, já passou. Eu coloquei palitos de fósforo na boca, era um ato que eu ia realizar dia 17 de Junho, chamado Fala Fônica. Mas escrevo sobre o ato que não ocorreu, porque quando eu coloquei os palitos de fósforo na boca um homem surgiu da plateia com um isqueiro e acendeu os palitos. Não deu tempo de dizer nenhuma palavra, não deu tempo de produzir nenhum tipo de reação salivar, a não ser um cuspe final. Essa não foi a performance Fala Fônica, ela não aconteceu dia 17 de Junho. Nesse dia, depois de uma chamuscada no meu cabelo, e um pouco no bigode, e um pouco na mão, eu joguei os palitos de fósforo no chão. Mandei o homem apagar, ele pisava no fogo e dizia "desculpa". Então eu falei aquele texto, sobre afiar palavras cegas em paredes de abismo afogado, e os pormenores vão ficando cada vez maiores. Foi dia 17 de Junho. Depois me perguntaram "era pra aquele cara ter acendido os palitos?", a resposta que eu dei foi "não". Depois me perguntaram "por que você não fez nada?". Não respondi, envergonhado, pois não me parecia previsível que alguém fosse mesmo tentar tacar fogo na cara do performer. Eu realmente não esperava que precisaria me defender desse acontecimento. Lembrei de um stand up do Jim Carrey sobre reagir com SIM à impulsos errados (vejo alguém com uma porção de palitos de fósforo na boca, tenho um isqueiro, VOU ACENDER PRA ELE? SIM). Eu já estou citando textos de stand up comedy. Que situação. De fato, dia 17 de junho, o único elemento que não devia ter aparecido, o fogo, foi o único elemento que apareceu, causando a dúvida de quem teria sido o responsável por aquilo. O performer, ou a irresponsabilidade do performer que não sabia se defender. Afinal de contas, qual é o real? O real é o que nos escapa? Dia 17 de Junho não aconteceu a performance Fala Fônica, aconteceu o que sobrou dela, o som, a fala, o desperdício, a grama queimada, a frustração, a expulsão, o abismo afogado entre o que foi preparado e o que foi experienciado, os destroços de um grupo de teatro, a roda da fortuna. Dia 17 de junho não aconteceu a performance Fala Fônica, aconteceu o que muitas pessoas se perguntaram e me perguntaram se era para ter realmente acontecido, foi o que realmente aconteceu, a risadinha indiferente, a risadinha preocupada, a risadinha com culpa burguesa, o desaparecimento da arte, o desaparecimento do artista, apenas o real.


Foto - Marcos Piva


segunda-feira, 29 de maio de 2017

DOIS PULMÕES



Quando olho para trás não é só olhar para trás. Quando olho para trás depois da despedida, e da esquina com espasmo, e da mania de perseguição, e do culto ao medo que frequento, parece que estou contando com o medo da vingança à altura. Quando olho para trás não é só não olhar para trás. Quando olho para trás estou perseguindo o lugar de onde eu saí, enquanto sigo em frente, tomado por uma fome inesperada. Mas também pelo romantismo de um bandido cinematográfico, conquistando afeições como um cachorro culpado ao lado do rolo de papel higiênico. Você diz que prefere abrir mão, sendo intransigente nesse ponto. Mas, você também faz meus pés segurarem alguma coisa, enrolados em si mesmos como uma língua, procurando a convulsão do próprio gosto. Pensamentos invertebrados rastejam melhor se desmoronam desde o nascimento do derretimento. Dois pulmões, pelas minhas contas, é o nome que eu dei, fazendo cara de quem esqueceu que estava falando com vestígios de que havia um ponto de partida. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

ESCUTA



E aos poucos vou desfazendo as armadilhas, mas deixando sempre o meu rastro, uma baba que escorre das minhas atividades, sobre os destroços das armadilhas. Já destroços: Silêncio, chuva, mãos que seguram como bocas de cadelas, bocas maternas, dedos acariciadores, imaturidade, maturação, e o próprio chão se abrindo em poros, suando dentro de si mesmo, um chão invaginado por baba, vozes escorregadias, trovões que nunca o alcançam, relâmpagos devolvidos. 

Minha cachorra tomando sol de frente para uma telha que ela observava encostada na parede escutou a sua movimentação. Sim, imitador! Ela me contou, leitor imitador. Ela me contou sobre as imitações de leitura. Quando você é muito bom em imitar as outras pessoas você não consegue ser você mesmo. Mas, quando você é muito bom em imitar você mesmo, você não consegue mais mudar. Esquece o que é deixar de ser. Da última vez que me imitaram eu nunca mais fui o mesmo. 

Cantando não. Os pormenores vão ficando cada vez maiores. Eu estava contando as minúcias derramadas. Contendo. Eu estava cada vez mais doente das árvores.

ESCUTA: Existirá um jogo de proporções, um jogo de espelhos entre a latência e a estatura estreita de uma rua? Quando eu desligo tudo o que emite frequência, elétrico, eletrônico, fônico, magnético e magmático... é silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Mas como é estreita a rua onde todos eles latem. Se cair um pedaço de madeira e bater no portão. Não sei de onde, da infinidade na inquietude da infinidade de uma nova obra. Tudo late até ninguém mais escutar cabeçadas contra o muro. Tem me intrigado esse encanto nebuloso, em choro, berro e latido, o encanto pelo escândalo canino.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Essa é a correnteza reversa


essa é a correnteza reversa
sabemos que estamos aqui
pela posição dos peixes
pela fome dos espinhos
ela me disse isso quando
não estava naquela festa
desconfortável (com o que
estava acontecendo) na casa dela
ela já não fica incomodada
ela já não é mais convidada
a ensinar a arte da indiferença
ela não chegou a ser esquecida
nas histórias do que derrotou
bardos emergem das bocas prontas
podres para musas sem formato
a pobreza testará a resistência de todos, e
quando avistarem um homem naquela pedra
ou reconhecerem no movimento de velas
piscarem os pares de olhos, será ela

essa é a correnteza reversa

quarta-feira, 10 de maio de 2017

a fogo

02 de Dezembro de 2016

o silêncio fala pela tua boca
aberta por todos os lados
rela anestesias nos olhos
a cócega causa lágrimas
do símbolo não visto

tua boca fala pelo silêncio
as pessoas mudam muito
algo depois que te conhecem
e depois acreditam que você muda
algo depois que te conhecem

tua boca pelo silêncio cala
a cicatriz expulsa um casulo
com fios de saudades sonoras
não há justiça, há alguns gritos
e alguns cabritos que te dou porque são muito caros

o silêncio boca pela tua fala
isso ignora, não ignore agora
a chuva arterial suspira
o grito ouvido dos pulsos

e afoga os policiais

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A CASA DIZIA II



cortinas resvalam no travesseiro
acordo quando o silêncio oval
ilumina o vento avulso

descanso numa língua dura
me canso com duplo sentido
meu cão preto flutua
cheirando o chão onde piso

nossa rotina afetiva endereça
e a guerra nos arremessa  
pedras quebram o silêncio
se rompe em espelho sepulcral

duas bombas de vidro
estouram silêncios sem sentido

desses que abrem bem os olhos

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A CASA DIZIA


A casa dizia chuva
Ela flutuava assim de memória
Sóbria sobra sombria na fenda de vinil
A casa pensa que estamos
Vivos e sabe a hora que chegamos
Não a ponto de não conseguir mais nadar
Ou ensaiar musicais hipnóticos
A casa acendeu as velas
Nos cantos rompidos do vaso
Não a ponto de interromper
O fim do mundo sem apoteose
A casa acenou com os braços
Ela quer que você reconheça
Não a ponto de não haver árvores ouvindo
Sob a tempestade de nuvens despenteadas
A casa fumou fios de cabelo
E uma carta rasgada de amor
O seu corpo emana passagens musicais subterrâneas
Ou paisagens respiratórias para pedras duras

Mas a casa dizia chuva

segunda-feira, 17 de abril de 2017

E AQUI COMEÇO




E aqui começo. Na verdade, desde u m a criança que escrevo. E aqui posso dizer que me considero um escritor que encena os próprios textos, e escreve performando. Cheguei a me formar em Direção Teatral na faculdade, saindo do interior de São Paulo e indo morar em Curitiba, onde tive a sorte de escrever encenando com os artistas mais talentosos daquela cidade, das mentes mais inventivas e das idiossincrasias mais apaixonantes. Minha escrita esteve selecionada, integrando edições de revistas importantes voltadas para a poesia, tais como tantas que você deve(ria) conhecer. Ocorreu que há um pouco mais de dois anos comecei a pôr em ação um plano que desde u m a criança eu tinha, que era o de assumir a função de causador de risada. Plano esse iniciado com o monólogo "Ótima Ideia", cujo vídeo abaixo (ACIMA) anunciava a estreia, e a peça continha muito do que foi parar no programa de TV que provavelmente você viu (se não tem vídeos nessa mesma página de facebook que contém o vídeo acima). Engraçado, me vejo diante de um punhado de ações que não faço ideia de como conciliar, desde as escritas herméticas demais que muitas vezes me silenciam e noutras me fazem cantar e tacar fogo com a garganta de quem foi se aproximando de mim, acreditando que rebolar comigo faria com que as unhas expelissem aquilo que acredito ser uma poesia acerca do som das abelhas, até esse hermetismo virar um palhaço idiossincrático, uma voz com pensamentos engraçados que parecem não estar saindo do corpo que apareceu na tv (dizendo de outra forma, um stand up mais pra pensar, mas que é engraçado também). Não preciso conciliar, afinal de contas "precisar" ainda é uma palavra da qual não assimilo o significado que me é apresentado. Como assim "preciso"? Como assim "não preciso"? Deixei Bauru, deixei Curitiba, deixei o silêncio de quem está me escutando se transformar em risada. Ainda não deixei a risada, ainda não deixei o silêncio, ou Curitiba, ou Bauru. Tenho uma vontade constante de transformação, uma vontade constante de libertação, não adianta eu tentar ir contra essa vontade, é a única coisa que me move. Se eu me movi é porque houve uma vontade de transformação, uma alquimia, um ponto a partir do qual não possa haver retorno. E aqui agradeço, a cada um que possa ter se envolvido nesse percurso, desde os meus pais corajosos aos meus amigos e minhas amigas geniais, desde minhas decepções amorosas a minha companheira de concepções, aos que estão no facebook e aos que não estão, a quem me leu, publicou, indicou, convidou, contactou, contratou, se aproximou, se afastou, minha nossa, essa é a vida, desde u m a criança velhinha que costumo imitar até agora e todos os quandos. Brasil, um país hostil, respondamos com uma arte a altura. Obrigado.

P.S.: Em 2016 publiquei meu primeiro material impresso, chamado Placenta de Prazeres, que pode ser adquirido nesse link diretamente com a editora. Uma etapa que não podia passar despercebida de quem afinal se considera escritor.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Doze segundos


O ônibus passou ralando a janela naquela mesma árvore, mas naquele dia uma folha pulou de um galho e entrou, alojando-se bem no meu ombro esquerdo com o apoio do vento. Era o momento ideal, e o mais propício para semear uma discreta confiança numa espécie arbórea de apadrinhamento, algo de que no fundo eu estava necessitado. Isso porque, diferente dos dias anteriores no mesmo ônibus, ralando a janela na mesma passagem diariamente, a árvore optou por colocar a mão no meu ombro, aquela folha com proporções de meio palmo, o que interpretei como um daqueles tapas encorajadores no ombro, que dizem “vai lá que a titia árvore está torcendo por você”. A folha ficou um tempo no meu ombro, dando-me o aspecto de armadura pela metade. Ao segurá-la não pude evitar a sensação de agradecimento com um olhar meticulosamente invisível. Joguei bem no meio do vento a folha, a essa altura um verdadeiro oferecimento da nação árvore, e tomado por um verdadeiro elevo de gratidão, aceitação, e devolução, e um turvamento de noções claras acerca de origens e objetivos tornava as coisas perigosamente motivadoras. Isso pouco me preocupou, eu já era uma árvore novamente, debruçando meios escudos para encorajar o corpo do vento. Mas isso durou algo como doze segundos. 

Foto - Catharine Elorza
Performance - Memórias Póstumas de Macunaíma (2013)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ONDE


Self Burial With Mirror - Keith Arnatt
Onde
“Pede-se à pele que responda”
Ela repele

Onde
Expulsamos o espelho
Ele está velho

Onde
A pedra ciumenta de vidro
Quebra e só aumenta

Onde
Estouram as bolhas frias
Lágrimas de banho

Onde
A grávida que me olha
Molha a barriga

Onde
A palavra dá seus pulos

Olha a gravidade

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Estação Rodoferroviária de Curitiba

Self burial - Keith Arnatt

Encontro-me com elementos secretos estruturando e desmoronando as minhas atividades, eles estavam inscritos na estação rodoferroviária de Curitiba, uma consequência natural de viagens noturnas. A desorganização não governamental mais libertária para a qual sempre sonhei em servir é tragicamente (e digo tragicamente à princípio ignorando todo fracasso comercial no qual tenho experiência), é tragicamente influenciada pelas obras inacabadas envolvendo melhorias na estação rodoferroviária de Curitiba. A coragem que salvou os meus nervos da intoxicação abre as janelas secretas no quarto invisível onde dorme uma família calorosa e cansada da indiferença e do abandono na estação rodoferroviária de Curitiba, a menina intrigou todo o rosto olhando para mim, como toda criança costuma fazer. A estação rodoferroviária de Curitiba, onde estive preso por não ser do outro país, onde estive preso por não saber amarrar os nós com as duas mãos, onde estive preso pelos pés nos galhos do espelho que dividimos, pelos braços nas grades em que pensamos, pelos olhos no vento cangaceiro que congela, pela língua nos olhos do medo em silêncio. A estação onde rezei com os pés amarrados no trilho, escutando as engrenagens se aproximando cada vez mais, até começarem a se distanciar. Aliás, foi na estação rodoferroviária de Curitiba que eu olhei pela primeira e última vez para os meus pés descalços, nos primeiros segundos antes de morrer com as pernas pra cima, e alguns instantes depois de ter nascido. Os pés tem voz de estação rodoferroviária de Curitiba, dando passos de relógio sem ponteiro, impressionando os segundos disponíveis dos transeuntes que viram no escuro as minhas pegadas bagaceiras. Eu roubei e matei quem me impediu de fazê-lo, acessando o lance branco de escadas da rodoferroviária de Curitiba, enquanto escutava o coro de brinquedo, tomado por sagrado. Mundo, que de vasto não tem nada, na estação rodoferroviária de Curitiba, que de nada não tem vasto mundo. Mundo que devasto não tem nada. Na estação rodoferroviária de Curitiba um mundo que de nome não tem nada. Na estação rodoferroviária de Curitiba escutei relinchar a égua enfumaçada da primavera noturna que amei com os dentes frios na pele. Na estação rodoferroviária de Curitiba a mulher rouca, silenciosa, que entrou com seu cachorro dentro de uma gaiola, tendo colocado ele sobre o seu joelho durante alguns instantes, no banco ao lado do meu na viagem de ônibus acabou de acordar. Caía uma tempestade muscular de relâmpagos, desmoronamentos enredados na era das construções da estação rodoferroviária de Curitiba. Na primeira vez que estive na estação era hora de acordar, abrir as janelas vazias e colocar os frascos alinhados lado a lado, como detalhes de um cajado exposto ao sol, mordendo a madeira com toda sua irradiação dentária. A estação rodoferroviária de Curitiba foi o endereço para o qual escrevi minha última carta incendiada, remetente: consciência do desejo, destino: desejo da consciência. Tudo o que eu falo está com inflamação nas palavras até hoje. Hoje, um homem com olhos assassinos estava de cócoras, encostado no poste de táxi, esperando abrir a porta para guardar as caixas na van branca. Com a lateral do corpo apoiada na parede, uma mulher que esperava o ônibus me observava com intimidade. Como se soubesse da minha preocupação com o homem de olhos assassinos, e esboçasse rir dessa apreensão excessivamente disfarçada. O homem de olhos assassinos entrou na van, e foi embora junto com as caixas que ele havia colocado no bagageiro dela. Poucos minutos depois veio de uma esquina um homem que tinha um vulto no lugar do rosto, os passos atrasados, e uma caixa nas mãos. Quando vi aquela caixa não consegui deixar de pensar com a devida leveza em todos os extravios, exageros, e exasperações de caixas arrastadas no chão da estação rodoferroviária de Curitiba. 

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