quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Doze segundos


O ônibus passou ralando a janela naquela mesma árvore, mas naquele dia uma folha pulou de um galho e entrou, alojando-se bem no meu ombro esquerdo com o apoio do vento. Era o momento ideal, e o mais propício para semear uma discreta confiança numa espécie arbórea de apadrinhamento, algo de que no fundo eu estava necessitado. Isso porque, diferente dos dias anteriores no mesmo ônibus, ralando a janela na mesma passagem diariamente, a árvore optou por colocar a mão no meu ombro, aquela folha com proporções de meio palmo, o que interpretei como um daqueles tapas encorajadores no ombro, que dizem “vai lá que a titia árvore está torcendo por você”. A folha ficou um tempo no meu ombro, dando-me o aspecto de armadura pela metade. Ao segurá-la não pude evitar a sensação de agradecimento com um olhar meticulosamente invisível. Joguei bem no meio do vento a folha, a essa altura um verdadeiro oferecimento da nação árvore, e tomado por um verdadeiro elevo de gratidão, aceitação, e devolução, e um turvamento de noções claras acerca de origens e objetivos tornava as coisas perigosamente motivadoras. Isso pouco me preocupou, eu já era uma árvore novamente, debruçando meios escudos para encorajar o corpo do vento. Mas isso durou algo como doze segundos. 

Foto - Catharine Elorza
Performance - Memórias Póstumas de Macunaíma (2013)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ONDE


Self Burial With Mirror - Keith Arnatt
Onde
“Pede-se à pele que responda”
Ela repele

Onde
Expulsamos o espelho
Ele está velho

Onde
A pedra ciumenta de vidro
Quebra e só aumenta

Onde
Estouram as bolhas frias
Lágrimas de banho

Onde
A grávida que me olha
Molha a barriga

Onde
A palavra dá seus pulos

Olha a gravidade

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