segunda-feira, 29 de maio de 2017

DOIS PULMÕES



Quando olho para trás não é só olhar para trás. Quando olho para trás depois da despedida, e da esquina com espasmo, e da mania de perseguição, e do culto ao medo que frequento, parece que estou contando com o medo da vingança à altura. Quando olho para trás não é só não olhar para trás. Quando olho para trás estou perseguindo o lugar de onde eu saí, enquanto sigo em frente, tomado por uma fome inesperada. Mas também pelo romantismo de um bandido cinematográfico, conquistando afeições como um cachorro culpado ao lado do rolo de papel higiênico. Você diz que prefere abrir mão, sendo intransigente nesse ponto. Mas, você também faz meus pés segurarem alguma coisa, enrolados em si mesmos como uma língua, procurando a convulsão do próprio gosto. Pensamentos invertebrados rastejam melhor se desmoronam desde o nascimento do derretimento. Dois pulmões, pelas minhas contas, é o nome que eu dei, fazendo cara de quem esqueceu que estava falando com vestígios de que havia um ponto de partida. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

ESCUTA



E aos poucos vou desfazendo as armadilhas, mas deixando sempre o meu rastro, uma baba que escorre das minhas atividades, sobre os destroços das armadilhas. Já destroços: Silêncio, chuva, mãos que seguram como bocas de cadelas, bocas maternas, dedos acariciadores, imaturidade, maturação, e o próprio chão se abrindo em poros, suando dentro de si mesmo, um chão invaginado por baba, vozes escorregadias, trovões que nunca o alcançam, relâmpagos devolvidos. 

Minha cachorra tomando sol de frente para uma telha que ela observava encostada na parede escutou a sua movimentação. Sim, imitador! Ela me contou, leitor imitador. Ela me contou sobre as imitações de leitura. Quando você é muito bom em imitar as outras pessoas você não consegue ser você mesmo. Mas, quando você é muito bom em imitar você mesmo, você não consegue mais mudar. Esquece o que é deixar de ser. Da última vez que me imitaram eu nunca mais fui o mesmo. 

Cantando não. Os pormenores vão ficando cada vez maiores. Eu estava contando as minúcias derramadas. Contendo. Eu estava cada vez mais doente das árvores.

ESCUTA: Existirá um jogo de proporções, um jogo de espelhos entre a latência e a estatura estreita de uma rua? Quando eu desligo tudo o que emite frequência, elétrico, eletrônico, fônico, magnético e magmático... é silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Mas como é estreita a rua onde todos eles latem. Se cair um pedaço de madeira e bater no portão. Não sei de onde, da infinidade na inquietude da infinidade de uma nova obra. Tudo late até ninguém mais escutar cabeçadas contra o muro. Tem me intrigado esse encanto nebuloso, em choro, berro e latido, o encanto pelo escândalo canino.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Essa é a correnteza reversa


essa é a correnteza reversa
sabemos que estamos aqui
pela posição dos peixes
pela fome dos espinhos
ela me disse isso quando
não estava naquela festa
desconfortável (com o que
estava acontecendo) na casa dela
ela já não fica incomodada
ela já não é mais convidada
a ensinar a arte da indiferença
ela não chegou a ser esquecida
nas histórias do que derrotou
bardos emergem das bocas prontas
podres para musas sem formato
a pobreza testará a resistência de todos, e
quando avistarem um homem naquela pedra
ou reconhecerem no movimento de velas
piscarem os pares de olhos, será ela

essa é a correnteza reversa

quarta-feira, 10 de maio de 2017

a fogo

02 de Dezembro de 2016

o silêncio fala pela tua boca
aberta por todos os lados
rela anestesias nos olhos
a cócega causa lágrimas
do símbolo não visto

tua boca fala pelo silêncio
as pessoas mudam muito
algo depois que te conhecem
e depois acreditam que você muda
algo depois que te conhecem

tua boca pelo silêncio cala
a cicatriz expulsa um casulo
com fios de saudades sonoras
não há justiça, há alguns gritos
e alguns cabritos que te dou porque são muito caros

o silêncio boca pela tua fala
isso ignora, não ignore agora
a chuva arterial suspira
o grito ouvido dos pulsos

e afoga os policiais

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A CASA DIZIA II



cortinas resvalam no travesseiro
acordo quando o silêncio oval
ilumina o vento avulso

descanso numa língua dura
me canso com duplo sentido
meu cão preto flutua
cheirando o chão onde piso

nossa rotina afetiva endereça
e a guerra nos arremessa  
pedras quebram o silêncio
se rompe em espelho sepulcral

duas bombas de vidro
estouram silêncios sem sentido

desses que abrem bem os olhos

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A CASA DIZIA


A casa dizia chuva
Ela flutuava assim de memória
Sóbria sobra sombria na fenda de vinil
A casa pensa que estamos
Vivos e sabe a hora que chegamos
Não a ponto de não conseguir mais nadar
Ou ensaiar musicais hipnóticos
A casa acendeu as velas
Nos cantos rompidos do vaso
Não a ponto de interromper
O fim do mundo sem apoteose
A casa acenou com os braços
Ela quer que você reconheça
Não a ponto de não haver árvores ouvindo
Sob a tempestade de nuvens despenteadas
A casa fumou fios de cabelo
E uma carta rasgada de amor
O seu corpo emana passagens musicais subterrâneas
Ou paisagens respiratórias para pedras duras

Mas a casa dizia chuva

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