quinta-feira, 25 de maio de 2017

ESCUTA



E aos poucos vou desfazendo as armadilhas, mas deixando sempre o meu rastro, uma baba que escorre das minhas atividades, sobre os destroços das armadilhas. Já destroços: Silêncio, chuva, mãos que seguram como bocas de cadelas, bocas maternas, dedos acariciadores, imaturidade, maturação, e o próprio chão se abrindo em poros, suando dentro de si mesmo, um chão invaginado por baba, vozes escorregadias, trovões que nunca o alcançam, relâmpagos devolvidos. 

Minha cachorra tomando sol de frente para uma telha que ela observava encostada na parede escutou a sua movimentação. Sim, imitador! Ela me contou, leitor imitador. Ela me contou sobre as imitações de leitura. Quando você é muito bom em imitar as outras pessoas você não consegue ser você mesmo. Mas, quando você é muito bom em imitar você mesmo, você não consegue mais mudar. Esquece o que é deixar de ser. Da última vez que me imitaram eu nunca mais fui o mesmo. 

Cantando não. Os pormenores vão ficando cada vez maiores. Eu estava contando as minúcias derramadas. Contendo. Eu estava cada vez mais doente das árvores.

ESCUTA: Existirá um jogo de proporções, um jogo de espelhos entre a latência e a estatura estreita de uma rua? Quando eu desligo tudo o que emite frequência, elétrico, eletrônico, fônico, magnético e magmático... é silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Mas como é estreita a rua onde todos eles latem. Se cair um pedaço de madeira e bater no portão. Não sei de onde, da infinidade na inquietude da infinidade de uma nova obra. Tudo late até ninguém mais escutar cabeçadas contra o muro. Tem me intrigado esse encanto nebuloso, em choro, berro e latido, o encanto pelo escândalo canino.

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