terça-feira, 20 de junho de 2017

OS PORMENORES VÃO FICANDO CADA VEZ MAIORES

Foto - Marcos Piva


Escrevo sobre uma nova performance, um ato que realizei no dia 17 de Junho, e que até então tenho chamado de Fala Fônica. Apesar disso, não escrevo sobre a performance Fala Fônica, que não foi realizada no dia 17 de Junho. Dia 17 de Junho não aconteceu a performance Fala Fônica. Apesar disso, escrevo sobre o dia 17 de Junho, quando o ato de fala preparado para afiar palavras cegas com palitos de fósforo na boca confundiu-se com um inesperado risco em que esteve em jogo minha integridade física. Mas está tudo bem, foi dia 17 de Junho, já passou. Eu coloquei palitos de fósforo na boca, era um ato que eu ia realizar dia 17 de Junho, chamado Fala Fônica. Mas escrevo sobre o ato que não ocorreu, porque quando eu coloquei os palitos de fósforo na boca um homem surgiu da plateia com um isqueiro e acendeu os palitos. Não deu tempo de dizer nenhuma palavra, não deu tempo de produzir nenhum tipo de reação salivar, a não ser um cuspe final. Essa não foi a performance Fala Fônica, ela não aconteceu dia 17 de Junho. Nesse dia, depois de uma chamuscada no meu cabelo, e um pouco no bigode, e um pouco na mão, eu joguei os palitos de fósforo no chão. Mandei o homem apagar, ele pisava no fogo e dizia "desculpa". Então eu falei aquele texto, sobre afiar palavras cegas em paredes de abismo afogado, e os pormenores vão ficando cada vez maiores. Foi dia 17 de Junho. Depois me perguntaram "era pra aquele cara ter acendido os palitos?", a resposta que eu dei foi "não". Depois me perguntaram "por que você não fez nada?". Não respondi, envergonhado, pois não me parecia previsível que alguém fosse mesmo tentar tacar fogo na cara do performer. Eu realmente não esperava que precisaria me defender desse acontecimento. Lembrei de um stand up do Jim Carrey sobre reagir com SIM à impulsos errados (vejo alguém com uma porção de palitos de fósforo na boca, tenho um isqueiro, VOU ACENDER PRA ELE? SIM). Eu já estou citando textos de stand up comedy. Que situação. De fato, dia 17 de junho, o único elemento que não devia ter aparecido, o fogo, foi o único elemento que apareceu, causando a dúvida de quem teria sido o responsável por aquilo. O performer, ou a irresponsabilidade do performer que não sabia se defender. Afinal de contas, qual é o real? O real é o que nos escapa? Dia 17 de Junho não aconteceu a performance Fala Fônica, aconteceu o que sobrou dela, o som, a fala, o desperdício, a grama queimada, a frustração, a expulsão, o abismo afogado entre o que foi preparado e o que foi experienciado, os destroços de um grupo de teatro, a roda da fortuna. Dia 17 de junho não aconteceu a performance Fala Fônica, aconteceu o que muitas pessoas se perguntaram e me perguntaram se era para ter realmente acontecido, foi o que realmente aconteceu, a risadinha indiferente, a risadinha preocupada, a risadinha com culpa burguesa, o desaparecimento da arte, o desaparecimento do artista, apenas o real.


Foto - Marcos Piva


Um comentário:

João Ricardo Ribeiro disse...

Eu fiquei com medo, por estar frio e tentarem te fazer de fogueira. Mas eu lembro dos perigos desses seus trabalhos e sempre rezo pra que não apareceu um mais louco.

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