quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Gato Imaginário


Desenho de Feliciano Dessena publicado no livro Antes O Mundo Não Existia de Luiz Lana

As casas tomavam sol naqueles dias frios. Transbordavam animalidades através da pele por onde entra a luz. Um gato marrom parou na frente do portão de casa como um eco. Eu me perguntei “e onde está o meu gato imaginário?”. Já deu cria, e eu cuidei dos filhotes durante o período necessário, mas onde estava? Chamei de volta o bem-te-vi que tinha me chamado. Esses pensamentos pardais roubam ração e deixam carrapatos no quintal mental. Essa casa não está mais encima do muro, afirmei com firmeza materna. Estava frio demais para isso. Onde estava o meu gato imaginário, eu me perguntava. Seu nome era Avessa, mas não era pelo nome que eu chamava.


Ocorria que mesmo com as crias mais crescidas, as que já acumularam um pouco de criação, precisavam sempre ser chamadas pelos os olhos. Pelo fundo dessas frestas luminosas e invasivas cheias de pele que eu chamava. Avessa surgiu de uma das portas, de onde vinha um barulho de chuveiro ligado, e parou como um eco me olhando. Então eu chamei de novo, olhando para a rua por dentro do cristalino costurado nos nervos. Ah, pequeno amigo, fêmea avessa, mãe amiga paterna, ausente indiferente, os melhores sustos que eu temo foi você quem me deu. E eu sempre te chamei com os olhos, por causa do nome Avessa. E eu sempre te alimentei com tudo o que escuto, além de matar a tua sede com sol encima da casa. 

Nenhum comentário:

Pesquisar este blog