sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Uma pessoa morrendo




Em primeiro lugar eu preciso que você saiba que eu estou fazendo uma pessoa que está saindo da prisão. Eu estava fazendo essa pessoa que está saindo da prisão. No meio de uma feira. Uma pessoa saindo da prisão no meio da feira. Mas, nos intervalos inconclusivos éramos interrompidos por buzinas em crescente ensurdecimento. Pensavam que ele estava morto! Mas ele estava apenas procurando um local para colocar combustível no seu veículo. Uma procura constante de combustível para o seu veículo. Uma pessoa que está saindo da prisão no meio da feira procura constantemente um pouco de combustível para o seu veículo.

Então, uma mulher chegou caminhando apressada até o posto, e sorriu para o frentista no momento em que foi vista por ele. Atrás dela vinha aquele homem, dono do carro. Tinha alguns centímetros a menos de altura, mesmo se desconsiderarmos o salto alto dela. Balançava os braços com sorriso informal e sem graça enquanto andava. Corpo de quem descia uma ladeira, mas estava apenas em linha reta como tantas. Ele estava procurando combustível, apesar do frentista ter feito questão de perguntar se não era falta de óleo no motor. Depois de uma conversação familiar, em tons ofensivos de intimidade humana usando palavras faladas, o casal voltou para o carro, que estava parado do outro lado da rua, com um galão de gasolina na mão.

Uma viatura da polícia parou atrás deles. Foi quando eu me certifiquei de que aconteceria algo que eu nunca deveria ter visto. Ao menos aquilo era uma coisa que eu nunca tinha visto na vida. Eu, que estava fazendo uma pessoa saindo da prisão, interrompida por sons de buzinas que ficaram mais graves. A mulher foi falar com os policiais na janela da viatura, enquanto aquele homem tentava dar partida no veículo. Ao se sentir protegido pelo o barulho das tentativas de ignição do motor o policial chamou a atenção da mulher na janela, pedindo para que ela se aproximasse mais, e demonstrando que o seu verdadeiro objetivo ainda não tinha sido revelado. Na realidade eles eram aqueles policiais de que tanto se falava na cidade. Eles, os que discretamente sempre exigiam uma buzina para irem embora. Exatamente nessas palavras “nós somos os que discretamente sempre exigem uma buzina para ir embora”.

Quando aquele homem conseguiu ligar o motor, acendendo as luzes da frente e de trás do carro, os dois policiais fixaram o olhar na sua nuca branca, num trabalho de constrangimento em parceria que faziam de dentro da viatura. A mulher foi caminhando lentamente até o carro, e os policiais pareciam que esperavam ela chegar. Quando ela fechou a porta, as luzes do carro alteraram a intensidade do espaço ao redor do veículo, iluminando os olhares atentos e as expressões de escuta dos dois policiais de forma paralisante e um bocado cinematográfica para mim, que estava fazendo uma pessoa saindo da prisão no meio da feira.

E certamente eram os policiais que exigem uma buzina para poderem ir embora, eu pensei, de longe, tentando não estragar a minha performance. Porque depois de alguns minutos do carro ter sido ligado, quando os ouvidos já tinham se acostumado com o ruído contínuo do motor, soou novamente a buzina. Um dos policiais abriu o vidro e acenou com a mão esquerda, juntando bem os dedos apontados pra cima, enquanto passava com a viatura ao lado do carro antes de desaparecer. A mulher e aquele homem também partiram, com um pouco de combustível que ele tinha encontrado para colocar no carro. Você pode não acreditar, mas eu estava apenas fazendo uma pessoa saindo da prisão no meio da feira quando começamos a escutar as buzinas ensurdecerem.

Pesquisar este blog