terça-feira, 12 de junho de 2018

O homem da cadelinha morta


O homem com uma cadela morta na mão ainda está ali. Eu não consigo acreditar que ninguém ainda tenha tirado aquele homem dali. Mesmo depois de tanto tempo segurando o corpo da cadelinha ninguém parece ter se dado conta de que isso já se tornou algo repulsivo, e discretamente compulsório. Ele não foi nem sequer tirado para dançar.  

Na primeira vez que o vi, a cadela ainda parecia estar viva nos seus braços. Mais viva do que os braços artificiais daquele homem irremovível, diga-se de passagem. Depois de diversas vezes que eu passei por aquele lugar, e vi que o homem ainda permanecia ali, e na mesma posição, cheguei a pensar que ele era uma estátua. Uma homenagem a ele mesmo, e à cadelinha, já tão velha que estava morta nos seus braços pobres, artificiais e carnívoros. E hoje eu já tenho absoluta certeza, uma das poucas que ainda cultivo, nessa vida tão exageradamente esparramada e desgastante, de que olhar aquele homem parado segurando a cadela morta se tornou uma obsessão na minha vida.

De fato, eu já não devia nem me preocupar mais com isso, se estão vivos ou se são estátuas da vida, como mencionei ter desconfiado. Mas, todos os dias, ao invés de desviar pelas ruas festivas que me aproximam do insuportável centro da cidade, eu acabo sempre passando pelo lugar onde ele fica parado. É como se ao invés de segurar a cadela morta nos braços ele a segurasse nos lábios.

Eu cheguei até mesmo a sonhar com a cadela que ele segura. Ela se aproximou de mim já ofegante, e deitou na minha barriga. De alguma forma, eu sabia que ela sempre tinha sido avessa a interações com desconhecidos, mesmo que desconhecidos em sonho. Mesmo assim, bem lentamente, eu fui encostando a mão nas costas dela. Ela me olhou então, como se eu não devesse ter feito aquilo. Mas permaneceu imóvel. O mais absurdo desse sonho foi eu ter me sentido mais íntimo da cadela depois que ela parou como uma esfinge deitada sobre a minha barriga.

Por alguns segundos, ou meses, ou dois anos e meio foi assim, a minha barriga não era mais a minha barriga, mas sim as costas da cadelinha naquele sonho. A cadelinha que eu vejo aquele homem segurar nos braços, sempre parado no mesmo lugar. Respirei fundo, ainda com a mão na barriga, e enquanto ia acordando desse sonho ainda parecia que a cadelinha estava respirando encima de mim, ao invés de morta nos braços daquela estátua viva.

Escuto o vento arrastando o lixo de propagandas impressas para debaixo de um céu de nuvens paradas. A estátua viva da minha vida ainda está ali. Debaixo de um céu que não parece fazer parte da mesma imagem que coloca em movimento grotesco o escarcéu de papeis, anúncios, tabloides, e todos os tipos de folhas secas, que nem mesmo uma árvore de terreno baldio poderia imaginar.

Essas árvores conhecem bem a tragédia das suas raízes, não necessitando de recursos persuasivos como agir tal e qual uma flor pisada. Elas sabem que as flores se arrancam pela raiz.

Enfim, era um céu de nuvens estáticas, hipnotizadas por sombras de papel que rosnam, mas não rasgam. Num movimento de fumaça baforada eu fui me afastando do maldito vulto que eu não deveria nem mais ver, mas que constantemente enrola os braços ao redor do meu pescoço. E quando ele faz isso dançam esqueletos com tremores de carne.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

As quatro mãos do dia 31

"Vento do Leste" - Glauber Rocha performando no Godard 

Passar o pensamento pela espinha até provocar arrepio, até esfregar e escorrer uma saliva grossa de sorriso pela boca pensante. A respiração do pensamento é um reencontro que também pode servir para você. Respire abrindo os braços, pensamento de braços abertos. Pensamento de bruços pulsando. Os pulmões vão escapando pelos poros das costas. Eros nas costas do planeta Terra, como um cavalo maluco, cavalo de fogo, cavalo bêbado, cavalo em transe. Você é bruxo? Sim. Você é satânico? Não, e você? Sou neutra. Mas tenho medo, eu e meus amigos fugíamos quando passávamos na frente da casa de um bruxo quando éramos criança. Não era eu, infelizmente.

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