quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Um contraste secreto

Conforme tive a oportunidade de acompanhar alguma parte do seu cotidiano ao longo desses anos não pude deixar de notar a permanência de um contraste no seu ritmo de vida. A alta velocidade dos seus passos, como um elástico arremessando o próprio estilingue, e a irritante lentidão em todo o resto das atividades. Como se andasse sempre muito rápido de um lugar para o outro justamente para poder demorar quando está parado, trocando uma lâmpada do quarto ou colocando mostarda num sanduíche de tomate, por exemplo. É lento até mesmo para parar de olhar nos olhos quando cumprimenta, o que perturba sempre a pressa dos cumprimentos passageiros, e volta e meia é mencionado nas conversas de corredor. A última que falaram foi que demorou uma semana para abaixar o braço esquerdo depois de um gesto onde usava a mão pra se expressar, os dedos pra cima crepitando tudo que contava com aquele apoio. Naquela semana ele parecia uma fogueira esquecida na praia, dessas com uma tira de fumaça atravessando dias e noites. Dessas que se costuma evitar respirar sob o risco de irritação grave, como a tosse de um hipócrita que achava ele tão bonzinho, mas tossia igual um papel que não termina de ser rasgado. Há uma finalidade secreta nesse contraste que parece ser arrancar o tempo silenciosamente das palavras.

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