segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Laboratório de lentidões

Foto - Andreia Costa



A minha lentidão e a minha calma são organizações da ansiedade, das angústias caóticas causadas por julgamentos que eu mesmo faço sobre mim na interpretação dos outros, e das preocupações com os olhares escondidos do outro. É uma calma tão cheia de ansiedade que facilmente se confunde com um nada, um inofensivo nada para quem está no fora particular que lhe diz respeito. Confunde-se alguém tão devagar com uma pessoa que praticamente não está ali, exceto quando está no caminho ou no campo de visão de outra pessoa. Uma existência que está mais para o signo do que para a vida humana, um disfarce retilíneo de neutralidade que se comporta como se merecesse ser especulada, ainda que no tom televisivo sobre a fauna, a flora que foca nas suas peculiaridades reprodutivas, nutritivas, deixando o cognitivo quase sempre num plano de fundo. Eu me alimento devagar porque já arranquei pedaços da boca em mastigadas rápidas, a fome é uma forma de caos que morde de forma atravessadora. Eu ando devagar, mas nunca tive pressa em me deslocar fisicamente. O que eu tenho é medo. Até porque, já tropecei e me arrebentei inteiro diversas vezes ao cair. Numa delas eu havia me recusado a ir ao hospital, e o sangue ressecou ao redor de um dos meus olhos fechados. Quando acordei não lembrava o que tinha acontecido, mas tinha um projeto de cicatriz e nenhum óculos no rosto. É um medo de cair e de trombar nos objetos ou nas pessoas. E ser alvo de represálias por conta do descontrole em que existo, algo que se deixa ler entre essas inabilidades motoras. O descontrole me coloca em movimento, por isso me movo bem lentamente, tentando me apoiar nos limites, reservar um pouco de fôlego  nas extremidades, cultivar algumas palavras nas narinas. Esse medo da minha própria voracidade me trás algumas vantagens, como a notória exiguidade da persona, cuja cabeça parece não fazer parte do resto do corpo exceto pela voz. E também algumas desvantagens, como a de estar sempre registrando o passado, revertendo anterioridades das explosões como quem lida com palíndromos. Eu seduzo devagar, entoando mantras deslocados de diversos idiomas, num amálgama difícil de mastigar sem um refresco. Construo um espaço comum que invade o meu e o seu, e nesse espaço invasivo me esqueço lentamente das dúvidas acerca das prioridades. Isso não pode ser feito com pressa, como no tempo do hipertexto digital. Posso garantir então que o meu medo não é o de morrer sem ter terminado nada do que comecei ou de não obter reconhecimentos desses começos em vida. É um medo de morrer e deixar as coisas terminadas, é morrer na terminação dos começos, é morrer com tudo o que me fez existir concluído, isso me angustia.

Nenhum comentário:

Pesquisar este blog