segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O Funcionamento da Máquina de Fumaça




Enquanto eu quase fui atropelado pela motorista que furou o sinal vermelho quando eu já estava no meio da rua, agressões físicas e psicológicas de diversas naturezas atravessaram meu pensamento. Diante dos acontecimentos inconclusivos que foram dando sentido à minha vida, silenciosamente eu sentenciei "nem pra ser atropelado eu dou conta". Foram poucos segundos de lucidez, em que percebi antecipadamente a vinda do carro, e parei no meio da rua para que a infratora atravessasse. Por um instante aplaudi a sua travessia, mas continuei em dúvida se aquilo que eu estava fazendo não era errado. Ela me olhou nos olhos e fez um gesto parecido com o que os jogadores de futebol fazem para o juiz  depois que cometem uma falta. A travessia em dilúvio de atropelados e atropeladas que não desfrutaram desses mesmos segundos de lucidez prolonga agora esses mesmos segundos por toda uma duração imaginária. Toda uma Idade Média de compromissos motorizados, num tal atropelamento de pensamentos, numa tempestade de agressões sem guarda-chuva que é a vida adulta. Essas adulterações da vida acontecem com exagero quando não se é atropelado, mas são rapidamente assimiladas na autofágica presença do corpo. Esse é o funcionamento de uma máquina de fumaça. 

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