segunda-feira, 20 de julho de 2020

Esboço de análise semiótica de "Sem Anestesia", de Rogério Skylab







“Ai!”, grita o sujeito, que cumpre também a função de interlocutor no impasse entre estesia e anestesia que o texto “Sem anestesia” empreende. Um interlocutor que recusa todas as propostas do interlocutário para sanar o motivo do grito: “está preparada?”, “tem certeza que não quer anestesia?”. O afastamento do enunciador em relação à enunciação potencializa a voz que emite os “ais”. E de fato essa é uma das únicas vozes que escutamos nesse diálogo. Através das repetições há uma demonstração de convicção por parte do interlocutor em negar a anestesia, uma disposição para o querer sentir dor, estabelecendo assim um percurso novo para a interjeição “ai”. Temos assim o programa narrativo de uso, do sujeito que quer ser operado, em relação a um programa narrativo de base, do sujeito que quer sentir dor. Se pensarmos no título do texto “Sem anestesia”, o “Ai” estabelece no discurso uma isotopia hospitalar de operação cirúrgica, onde os corpos são parcial ou integralmente anestesiados, impedindo o contato sensorial com as regiões que serão operadas. Mas, no desenrolar do diálogo, marcado por suas repetições e prolongamentos entoativos, o “ai” reforça uma relação de conjunção vivida pelo sujeito/interlocutor, que quer a estesia (“anestesia não!”), parecendo ser esse o objetivo da operação a que se submete. No entanto, finalizando o percurso, a operação semântica que a linguagem sofre (e realiza) sobre a interjeição “ai” não resolve o impasse entre a estesia e a anestesia representado pelos actantes da letra. Isso é sugerido na conclusão do texto “acabou, viu como não doi?/ ai!”.  

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