1.
isso visto na janela
outra flor flutuava
era só metade aberta
da sondagem flutuada
traveste a noite da tradução
de algum sussurro microfonado
o susto sendo vigiado
ave na ponta do galho
por isso inventaram a tv
grito calado da madrugada
isso visto assim é paisagem
desfrute de cada sentido
vivo sozinho uma imagem
nela buscando sentido
limitado pela arquitetura
teço o fundilho da fala
falha que a língua costura
isso visto dessa forma
não muda quase nada
só uma página concreta
em uma flora falada
nenhuma aurora me transformara
em página afora ou máquina falha
isso visto da janela
em pouco ou nada se propaga
nem mesmo rima ou mesmo apaga
a sina disso visto nessa época
2.
O Potencial Vingativo da Passagem Temporal
(ou, É isso o que se tem feito com a escrita)
Uma ou duas palavras para o teatro de variedades:
tira a mão da frente da mão de trás
do potencial vingativo da história
duas palavras sobre o tempo
tentam mas passam longe
eu posso ver os olhos
dos quais você se esconde
tira a mão melecada da frente
do meu grelo mal interpretado
(tê-lo não me cria caso
mando-te o falar francês
do burgo pós-revolucionário
a puxada do tapete é assim
trava a arcada que falava
quelóide falando querendo
que fala um poema desconhecendo)
tira a mão da frente
quem não sabe o que fala
toma o susto do diálogo
então explica novamente
a mão de trás coreografa
com que intento de fim
que inventava minha janela
poemas lidos num ônibus
(ou, É isso o que se tem feito com a escrita)
Uma ou duas palavras para o teatro de variedades:
tira a mão da frente da mão de trás
do potencial vingativo da história
duas palavras sobre o tempo
tentam mas passam longe
eu posso ver os olhos
dos quais você se esconde
tira a mão melecada da frente
do meu grelo mal interpretado
(tê-lo não me cria caso
mando-te o falar francês
do burgo pós-revolucionário
a puxada do tapete é assim
trava a arcada que falava
quelóide falando querendo
que fala um poema desconhecendo)
tira a mão da frente
quem não sabe o que fala
toma o susto do diálogo
então explica novamente
a mão de trás coreografa
com que intento de fim
que inventava minha janela
poemas lidos num ônibus
3.
o vento derruba todos os meus objetos. esse é o seu único gesto. devasta o topo da minha cômoda. eu vejo sem propor reação. o objeto do vento é o devasso. desejo vendo com os braços tremendo. a caixa também deu os seus passos. quando eu derrubo o sono da cama o dia desliga a câmera. comigo não houve diálogo. o sonho do olho aberto derretia. fazia secas casquinhas amarelas. ornamentos das laterais. o relato do ócio objeta o ar. adia o ciclo do amanhecido dia impondo de ode a ódio.
PROLIXA
a corretora de imóveis ria
trazia um mistério excitante
mostrou da janela a paisagem
disse: eis uma vista prolixa
hoje, arrependido, faço votos
dos piores intentos possíveis
que o lirismo da minha janela
aniquile a vida de tudo aquilo
a corretora de imóveis ria
eu não sabia que era verdade
quando descobri, fiquei parado
olhando a minha paisagem
disse: eis uma vista prolixa
aquela raiva hipnótica
debruçava-me o corpo
em repetidas lembranças
5.
na próxima leva de medo
o vento se movimenta
explode a voz de pólvora
ao ver a musculatura misturada
eles interrompem a magia
nunca vejo o relampejo
nem desejo de forma alguma
que em nenhuma música esteja
beija uma bola agora, beija
a outra que leve rasteja
sem nada pela janela
nem mesmo as fugas da noite
ou marginais com a bituca
o homem perde a cabeça
o vidro bate na nuca
quase fui um poeta
quase fui selecionado por um edital
faltou pouco pra que me amassem
por um triz isso não me ajeija
o homem morreria só por isso