Joelho Direito de um Ator

1.
Segundo o Dr. Osvaldo Azevedo Junior, a julgar pelos resultados do exame de raio X, o meu joelho direito possui os seguintes atributos:
·        Partes moles sem alterações;
·        Textura óssea normal;
·        Estruturas ósseas íntegras;
·        Espaços articulares preservados.
Voltei para casa no banco de trás do carro, com o envelope que continha o diagnóstico e as duas radiografias. No banco da frente, minha mãe falava sobre a natação. Meu pai retrucava com os exercícios já condizentes com a prática das artes cênicas. Eu não participava da argumentação. Aproveitava o veículo em movimento para olhar pela janela, e nisso concentrar toda a minha atenção. E ali descobrir qual seria o novo destino da minha atenção.  Eu ainda sentia dores no meu joelho direito, conforme dispunha minha perna em determinadas posições. Comecei a sentir estas dores desde a minha desistência de atuar em A Falecida, dado o resultado vergonhoso e intransponível ao qual uma cena de beijo sempre chegava.
Abri novamente o envelope do Centro de Diagnóstico de Imagem. Foram elaboradas duas radiografias do meu joelho direito. Uma era frontal, e a outra lateral. A frontal era como duas peças que se encaixavam perfeitamente, com uma extensão que surgia de trás de uma delas, que permanecia imperceptível, mas fora do lugar. A segunda, a imagem lateral do joelho, era como dois pênis, encostando uma glande na outra, com a mesma extensão traseira parecendo não ter relação e, uma novidade, que devia ser a patela solta. Coloquei as duas imagens radiografadas do meu joelho contra a janela, e continuei a aproveitar o meu tempo no veículo, observando o transito das coisas enquanto era eu quem transitava, o principal passatempo e atrativo nos veículos.

2.
Como meus pais pretendiam passar na panificadora, pedi para me deixarem em casa. Além de achar a panificadora um local muito desagradável,  eu já não podia mais suportar a discussão sobre a melhor atividade para resolver o problema do meu joelho. Cria que não haveria nada que pudesse ser feito, meu joelho direito seria sempre o mesmo, independente de tudo. Não era como um joelho alheio ao mundo. Mas era meu joelho direito, um joelho predestinado. Talvez eu devesse ter dito isso para eles, estaria sendo sincero, como sempre desejara ser.
       Quando saíram, meu pai travou a porta eletrônica, e minha mãe deu tchau, com a mão. Chaves e botões acionados até a panificadora. Distante. Eles preferiam a que ficava há dois bairros dali do que a que ficava há duas quadras. Isso porque a que era mais distante pertencia a um ex funcionário da prefeitura que parecia coincidir com o critério de confiança estabelecido por eles com relação a administração das panificadoras. Qualquer explicação mais plausível que essa pode ser considerada.  Eu gostava das panificadoras distantes, como dos supermercados distantes, dos bancos distantes, etc, etc, etc. Eles me favoreciam, estivesse eu indo até eles, ou esperando que voltassem deles.
Sozinho, na casa dos meus pais, onde eu apenas tenho um lugar, e já não sou mais um habitante como era antes. Sozinho, como nada era antes, pois colocando desta forma, encurto boa parte do caminho de dizer quem eu sou. Digamos que não tenho lar porque decidi deixar de ter, mas podemos dizer que decidi deixar de ter um lar porque gostaria de resolver ter um. Deixei de ter para não ter mais e então poder desejar entender o que é. O que é ter uma moradia. Que é ser o que não se tem. Decidi ficar também por isso, para esperar os donos da casa voltarem.
No corredor externo não passavam seres humanos que não alimentavam o cão. Mas, naquele dia, estavam apenas o cão e a comida de cão. Fui observar um pouco como os minutos passavam para ele. Éramos iluminados por carros que passavam em frente de casa, com luzes de faróis resvalando no corredor lateral. Acendi um cigarro para ter um tempo determinado na observação do cão. Quando me lembrei do fato de meus pais não fumarem, considerei aquele momento como uma raridade da menor importância que continha sua extrema significância. Mas evitei me surpreender. Continuei ali, resistindo.
O cachorro me olhava, já não me lembro o nome. Olhava como se soubesse que eu me esquecera do seu nome. E o que eu tenho que ver com o nome dele? Parecia estar me recriminando com aquele olhar, que se levantou, caminhou até o pote de ração, e ficou mascando, fazendo barulho. O cigarro ainda na metade. Depois, caminhou até o pote de água, enfiou a cara e começou a puxar a água com a língua, repetidas vezes. Parou, olhou para mim, dei então uma tragada mais pronunciada, pra ele entender o que eu estava fazendo. Voltou a puxar água com a língua. Caminhou até o pano e se deitou.

3.
Quando eu ganhei esse cachorro, eu tinha oito anos. Foi um presente de aniversário. Ele divertia os familiares enfiando o focinho em copos descartáveis dos quais não conseguia se livrar. Ao sair o último convidado da festa, minha mãe pediu que eu colocasse o cão para dormir, e fosse dormir logo em seguida. Bem que tentei, mas quando fechei a porta da cozinha, com ele do outro lado, vi que ele permanecia ali, através do vidro temperado. Pior, ele começou a chorar, com uivos. Aquilo foi tão impressionante, que também comecei a chorar, pra minha mãe. Ficamos, eu chorando pra minha mãe, dentro de casa, e o cachorro chorando para mim, através de um vidro e um uivo. Nada foi resolvido disso. Passando as semanas, fui sentindo vergonha de levá-lo para passear, já que esses passeios sempre terminavam de duas formas padrão: o desaparecimento do cachorro, retornando sempre com feridas e objetos encontrados na boca; ou, no uso da coleira, o excesso de esforço nos seus puxões, que acabavam causando a impressão de maus tratos. Desde então ele só sai quando escapa.
Nas minhas visitas na casa dos meus pais, ele agia como se eu ainda morasse na mesma casa, sem demonstrar a menor alegria ao meu retorno. O que eu não achava uma demonstração injusta de desafeto, já que exerci pouco cuidado com o animal que me foi dado. Além de ter desistido de levá-lo para os passeios, nunca troquei a sua água, e raras foram às vezes, antes de me mudar, que lhe apliquei banho. Então, quando eu volto, entendo que ele não tenha o que comemorar. Engraçado é que, mesmo tendo se tornado um cão de casa, foi ele quem melhor se adaptou as inúmeras mudanças de casa que meus pais fizeram. A vida dele se estabelecia a cada dia que passava, enquanto a minha tornava-se algo cada vez mais indeterminado.
Ele exercia com freqüência aquilo que chamaríamos crueldade. Matava marimbondos e se arrependia. Um dia acabou se enganando quando achou que havia matado, tendo que conviver com o inseto agonizando que o perseguia por onde fosse no quintal. Matava pássaros e se arrependia, mas nunca se enganava. Latia para tudo o que não demonstrava ameaça, até que foi ficando rouco e perdendo a voz nos seus últimos anos de vida. Um dia pus minha mão direita sobre a sua barriga de lado. Deitado, ele rolou, para que eu dispusesse minha mão pelo resto do seu corpo. Foi assim, nesse dia, que ele morreu, com as patas magras abraçadas na minha mão.

4.
Naquela vez, no corredor escuro, durante minha última tragada, ele punha os olhos bem firmes em mim. O seu pinto vermelho estava para fora, com a glande se expondo enquanto eu exalava fumaça pelo nariz.  Não satisfeito, acendi um segundo cigarro. O cachorro lambia o pinto vermelho, que parecia inchado, e sob o efeito de forte circulação sanguínea, tinha ar de irrealidade. As passadas de língua que o cão empregava no pinto pareciam cuidar dele, protegiam algo que aparentava tanto deslocamento da realidade. Confortavam aquela imagem abjeta, desproporcionada de edemas, em regiões específicas. O quanto mais ele lambia, maior o pinto ficava, maiores e mais desproporcionais as edemas. Era uma masturbação onde a mudança de tamanho físico era o equivalente ao prazer e ao conforto proporcionado.
Eu, que sempre fui do mesmo tamanho, não estava gostando daquilo. Nunca fomos lá grandes companheiros, eu sei disso. Mas, era como se algo houvesse me abandonado, algo fundamental na afirmação do sentido geral das coisas. Qual plenitude estava se afirmando como inalcançável? Não pude definir qual quando elaborei para mim mesmo esta pergunta, que funcionava como o último mecanismo de defesa da total dilaceração da realidade. Caminhei até o cachorro, agachei com os olhos nos olhos, e apaguei a bituca do meu segundo cigarro bem onde lhe cresceria uma mama, caso ele fosse uma cadela. Instintivamente, ele pulou no meu joelho direito, no que me pus em pé, e disse “agora é tarde, e Inês é morta”.

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