sábado, 12 de janeiro de 2019

Loading

Todos os personagens da peça de teatro Loading, meu trabalho de conclusão do curso de Direção Teatral, se reuniram novamente, dirigindo-se a mim numa espécie de intervenção que me surpreendeu. Não esperava que iria encontrar todos novamente assim de uma vez, Andy Warhol, Edie Sedgwick, Werner Herzog, Vladimir Herzog, Mito Pessoal, Jocasta, e até mesmo a adorável dupla Ator Mais Jovem e Ator Mais Velho. . Nessa nova aparição Andy Warhol afirmou que a melhor pessoa para se conversar sobre suicídio é Tennessee Williams, lembrando de quando falou para o dramaturgo sobre o salto para a morte do bailarino Freddy Herko. Edie Sedgwick garantiu com o Doutor Comprimido um ponto de vista privilegiado no blecaute de 1965 em Nova Iorque, alegando que aquele era o melhor lugar para se estar no escuro. O Mito Pessoal convence o ator mais novo a reencenarem a visita do Papa à cidade, e esse busca junto ao ator mais velho mais uma dose letal de informações com as quais certamente ainda não está preparado para lidar. E tudo provavelmente teve um reinício quando eles esclareceram que tinham vindo me dizer, em primeiro lugar, que Loading não era um título apenas inspirado no Loaded do Velvet Underground, mas que essa minha obsessão por títulos com sobreposição de referências secretas nos levou a um resultado inesperado, e ao mesmo tempo previsível: baixamos um vírus. Corta para a saída de um show, no momento que liga o show à vida fora dele, quando a mulher mais linda do mundo me disse que ser óbvio também tem as suas vantagens, e eu me vi desmanchado numa juventude que não passou de uma pasta com arquivos de edição de vídeo não concluídos. Ela era mais uma atriz que tinha desaparecido dentro do próprio texto enquanto cantava antes da estreia. Eu avisei, eu sabia, é isso o que sempre acontece quando eu tento esconder o ar do meu pulmão. No final de Loading também foi assim. Os gritos de uns moleques jogando futebol com bola de meia começaram a ficar ensurdecedores, interrompendo o clima de suspensão em que os personagens olhavam para a plateia até que todos fossem embora. E quando a bola de meia invadiu a cena, e descobrimos que dentro daquela meia não estava a cabeça de Andy Warhol mas sim um pulmão, eu repeti em voz alta (em voz em off) "eu avisei, eu sabia, é isso o que sempre acontece quando eu tento esconder o ar do meu pulmão", usando para isso o único ar que tinha dentro daquele pulmão. Isso deve ter feito com que reaparecessem todos esses personagens, que apesar de não terem feito parte de uma época real em que eu vivi, aparecem como sombras sobre as projeções de muito do que eu vivo. Deve ser por isso que eles resolveram voltar dessa vez, e provavelmente eles ainda voltarão em outras vezes. Às vezes eu me sinto num filme de terror onde eu sou um autor de filme de terror em que o terror são caricaturas de reconhecimento artístico.

terça-feira, 12 de junho de 2018

O homem da cadelinha morta


O homem com uma cadela morta na mão ainda está ali. Eu não consigo acreditar que ninguém ainda tenha tirado aquele homem dali. Mesmo depois de tanto tempo segurando o corpo da cadelinha ninguém parece ter se dado conta de que isso já se tornou algo repulsivo, e discretamente compulsório. Ele não foi nem sequer tirado para dançar.  

Na primeira vez que o vi, a cadela ainda parecia estar viva nos seus braços. Mais viva do que os braços artificiais daquele homem irremovível, diga-se de passagem. Depois de diversas vezes que eu passei por aquele lugar, e vi que o homem ainda permanecia ali, e na mesma posição, cheguei a pensar que ele era uma estátua. Uma homenagem a ele mesmo, e à cadelinha, já tão velha que estava morta nos seus braços pobres, artificiais e carnívoros. E hoje eu já tenho absoluta certeza, uma das poucas que ainda cultivo, nessa vida tão exageradamente esparramada e desgastante, de que olhar aquele homem parado segurando a cadela morta se tornou uma obsessão na minha vida.

De fato, eu já não devia nem me preocupar mais com isso, se estão vivos ou se são estátuas da vida, como mencionei ter desconfiado. Mas, todos os dias, ao invés de desviar pelas ruas festivas que me aproximam do insuportável centro da cidade, eu acabo sempre passando pelo lugar onde ele fica parado. É como se ao invés de segurar a cadela morta nos braços ele a segurasse nos lábios.

Eu cheguei até mesmo a sonhar com a cadela que ele segura. Ela se aproximou de mim já ofegante, e deitou na minha barriga. De alguma forma, eu sabia que ela sempre tinha sido avessa a interações com desconhecidos, mesmo que desconhecidos em sonho. Mesmo assim, bem lentamente, eu fui encostando a mão nas costas dela. Ela me olhou então, como se eu não devesse ter feito aquilo. Mas permaneceu imóvel. O mais absurdo desse sonho foi eu ter me sentido mais íntimo da cadela depois que ela parou como uma esfinge deitada sobre a minha barriga.

Por alguns segundos, ou meses, ou dois anos e meio foi assim, a minha barriga não era mais a minha barriga, mas sim as costas da cadelinha naquele sonho. A cadelinha que eu vejo aquele homem segurar nos braços, sempre parado no mesmo lugar. Respirei fundo, ainda com a mão na barriga, e enquanto ia acordando desse sonho ainda parecia que a cadelinha estava respirando encima de mim, ao invés de morta nos braços daquela estátua viva.

Escuto o vento arrastando o lixo de propagandas impressas para debaixo de um céu de nuvens paradas. A estátua viva da minha vida ainda está ali. Debaixo de um céu que não parece fazer parte da mesma imagem que coloca em movimento grotesco o escarcéu de papeis, anúncios, tabloides, e todos os tipos de folhas secas, que nem mesmo uma árvore de terreno baldio poderia imaginar.

Essas árvores conhecem bem a tragédia das suas raízes, não necessitando de recursos persuasivos como agir tal e qual uma flor pisada. Elas sabem que as flores se arrancam pela raiz.

Enfim, era um céu de nuvens estáticas, hipnotizadas por sombras de papel que rosnam, mas não rasgam. Num movimento de fumaça baforada eu fui me afastando do maldito vulto que eu não deveria nem mais ver, mas que constantemente enrola os braços ao redor do meu pescoço. E quando ele faz isso dançam esqueletos com tremores de carne.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

As quatro mãos do dia 31

"Vento do Leste" - Glauber Rocha performando no Godard 

Passar o pensamento pela espinha até provocar arrepio, até esfregar e escorrer uma saliva grossa de sorriso pela boca pensante. A respiração do pensamento é um reencontro que também pode servir para você. Respire abrindo os braços, pensamento de braços abertos. Pensamento de bruços pulsando. Os pulmões vão escapando pelos poros das costas. Eros nas costas do planeta Terra, como um cavalo maluco, cavalo de fogo, cavalo bêbado, cavalo em transe. Você é bruxo? Sim. Você é satânico? Não, e você? Sou neutra. Mas tenho medo, eu e meus amigos fugíamos quando passávamos na frente da casa de um bruxo quando éramos criança. Não era eu, infelizmente.

Pesquisar este blog