quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Penélope Pileata - Núcleo de Espetacularidades
Gravação: Tamíris Spinelli
Com: Ale Galcerán, Diego Abdul Galcerán, Guilherme Marks, Límerson Morales
sábado, 21 de janeiro de 2012
Mancha
Ah... tudo começou com uma profunda irritação com a espécie humana. Sua capacidade de gozar a aglomeração, de sustentar a boa convivência um com o outro (mesmo que às custas de certa vista grossa sobre o si mesmo). Chegar falando besteira e se despedir falando merda. Da trivialidade ao papo furado. Passar por tudo e todos sem extrair proveito de nada, sem extrair desgosto de nada, sem contrair nenhuma bactéria, parasita ou convicção. Os ilesos despreocupados, com seu desespero discreto. A mucosa escorrendo um líquido fino, denso, invisível. Foi aí que tudo começou.
Com aquela mancha que se estendia pela superfície, a marca de uma queimadura, estendendo-se constantemente, numa linha através do tempo. A mancha que vai revelando o caminho percorrido, e alterando a superfície utilizada. Parece uma chaga, uma cicatriz que caminha, quando se comporta como a mancha de uma sombra. O contorno de uma pessoa. Isso, que é explicativo enquanto moldura. Atravessando a multidão concentrada na praça, no centro da qual ocorria uma feira, contornando o chafariz e se estendendo depois dele. Passava por todas as pessoas, e tinha passos específicos, parecendo seguir uma marcação. Desviava de lado, parava e esperava, continuava fitando um ou outro par de olhos, e desaparecia entre uma pisada e outra. Pediu desculpas uma vez, quando atingiu uma bunda com a mão.
A mão é uma outra questão. Um outro campo de atuação, um outro ambiente de análise. Uma proposta diferente quanto às relações de peso. Puxavam os braços para baixo, no que os dois ombros eram dois ganchos, que puxavam as costas para cima e para frente. Um pé com cinco dedos, outro pé com seis dedos. Duas asas abertas dentro da pele respiratória, causando desconforto, testando a capacidade elástica na região torácica. Duas asas abertas que eram como dois olhos fechados, respirando, causando muitas dúvidas. E qual era a curiosidade, afinal? Para manter a espinha ereta, preferia não fazer nenhuma pergunta, sobre mais nada. Mas, para que existisse a curiosidade, afinal necessária, percebia que era melhor não deixar nada sem resposta. No que, ao surgir, uma pergunta era respondida imediatamente. Por exemplo: para onde estamos indo, afinal? Estamos indo para casa. E por que ainda não chegamos? Porque estamos perdidos. Então, não sabemos para onde estamos indo? Apenas andamos devagar. E nesse por aí vai, as perguntas se esgotavam por si mesmas. Restava o percurso.
Agora, bastante afastado das grandes aglomerações humanas, dos acúmulos de gente de médio porte, das saídas de escolas, dos encerramentos de feiras, das abduções coletivas do final da tarde, foi se aproximando de uma vitrine. Um ponto luminoso intenso, que distava ainda algumas quadras, e já fazia seus olhos se apertarem no rosto. Espremidos os olhos, a boca seguia o movimento de compressão nos lábios, chegando ao formato de um buraco redondo e pequeno. Um ponto final mudo. Ele se lembrou de um outro dia. Onde ele viu, da sua mesa no café da via expressa, o ônibus parar e expelir as pessoas que chegavam. Começou observando aquele acontecimento tomando o veículo como contexto, o ônibus que chegou a um limite, expelindo aquilo que não podia mais estar do lado de dentro. Quando ele via o ônibus ali, aliviando as suas necessidades, não como quem sua em movimento, mas como quem pára e abre as comportas dos intestinos, convencia-se de que estava diante de um organismo vivo, uma extensão do que ocorria entre a tensão e a harmonia.
Porém, o desembarque aconteceu com uma certa demora, e ele passou a considerar também o insustentável absurdo da aglomeração coletiva. A impressão perturbadora do excesso e do cansaço em cada passageiro que deixava o veículo. Atravessando a roleta giratória que é o modo sonoro de se instaurar o desligamento prático do mais absoluto desconforto passado dentro do veículo. A demora do desembarque naquela parada proporcionou essas duas naturezas de pensamento. Uma que partia do princípio de personalização, incluía o ônibus na continuidade do eu, e considerava a necessidade de ingerir e expelir. Outra que passava pela insuportabilidade cotidiana, da observação dos corpos que se movimentavam e atravessavam a roleta. Até que surgiu uma terceira interpretação, o epílogo do desembarque, o ponto final dos pontos de visão.
Aquela mulher que não conseguiu descer ali. Não que ela não precisasse descer naquela parada. Ela não conseguiu descer ali, onde ela se encontraria com o poeta com quem estava se relacionando. Às vezes ator, às vezes poeta, às vezes pseudo-produtor cultural... ela gostava dele. Não que fosse um gostar romântico, a partir daquela idéia perfeita de homem. Aquele estereótipo de companheiro para todas as horas. Não era isso porque ela estava mais se deixando levar. E não descer ali seria uma tolice, porque depois daquela parada, o ônibus faria uma brusca alteração no percurso, feita daqueles desvios traiçoeiros irrevogáveis. Mas, ela não conseguiu. Nem descer, nem se encontrar com o cara. A porta se fechou enquanto ela saía, deixando apenas uma perna e metade de um braço para fora. Além da cara, metade ansiosa e metade tranqüila, que ficou espremida entre as portas. As únicas partes do seu corpo que viram como seria se tivesse conseguido sair, e que puderam conversar com as partes do corpo que ficaram dentro do ônibus. Esse diálogo era uma dobra que uma só pessoa não nota em si mesma sem o susto.
O rosto dela, espremido pelas duas portas fechadas, parecia deixar um beijo para ele. Parecia um rosto sussurrando para ele, que lhe deixava um beijo tórrido, do fundo da alma apertada. Deixava um beijo, uma perna e metade de um braço para fora. A boca ficou do tamanho de um buraco redondo, com os lábios saltados em formato de bola carnal, semi-abertos. A secura foi instantânea, e a salivação foi iminente, pelo único buraco entre os lábios. Os olhos ativaram as mucosas secretoras. Na substancia expelida das regiões espremidas que se estendia a partir dali existia uma expressão de prazer. Ela se foi sem ter deixado nenhum lugar. A cara que nem sorria e nem chorava, mas encerrava a visão da mesa do café, e a lembrança que ele teve. Foi aí que a luz da vitrine cegou até mesmo a sua memória.
Serendipe. Faltavam dois passos para estar diante da vitrine, quando leu o nome da loja. Quando faltava só um passo para isso, encostou-se na parede. A luz que a vitrine emitia, branco com reflexão de branco, recortava aquele pedaço da rua de forma brutal. Como quem estabelece um conceito de maneira imediata, sem pormenores para serem considerados, sem investigações de somenos importância. E não produzia sombra quando resvalava no seu corpo encostado na parede. Ao longo de toda aquela quadra, não existia a sombra que comprovasse através de certa silhueta humana a presença de um corpo ocupando um espaço. Tinha uma mancha, em certo canto da rua, uma mancha preta, mistura de gente e árvore, poste e pedra, mesa e gente. Muito lentamente ele foi virando o rosto, as mandíbulas apertando os dentes, e os olhos quase fechados. E a luz da vitrine foi incidindo no seu rosto em crescente de intensidade.
Agora de frente, ele via uma máscara. Branca contornada com um detalhe assombroso de cor prata. Um suporte gris, conectado a um cubo branco. Todo o resto do espaço lhe pareceu também um branco sem fim, porque só a máscara chamava a sua atenção. O contorno prateado causava assombro porque sugeria um formato alongado em vertical. Um rosto puxado ao mesmo tempo pela base e pelo topo, cujo queixo e a testa se confundiam com o fundo branco. O contorno prateado espremia aquele rosto das laterais para dentro, como as mãos de um apaixonado espremem o objeto de paixão, ate que os olhos fiquem quase fechados, e a boca adquira a forma de uma bola. Uma bola de lábio carnal. Contendo apenas uma pequena abertura. Através dela escorria um líquido fino, denso, invisível. Esse fio fino que se estende por todo o caminho, deixando apenas manchas pela superfície. Alterando a sua textura ao longo do percurso, com essas manchas sempre presentes. A máscara, que nem ria e nem chorava, estava no seu máximo expressivo, causando-lhe susto e também conforto. Como todo objeto de paixão, deixava-lhe um beijo, uma mancha, e um fio de baba escorrendo das regiões mucosas espremidas. E foi aí que tudo começou. Ah... com aquela irritação profunda.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Inconformidades Estratificadas Desmoronando
O ôninus estava em movimento. Quando eu abri os olhos consegui ler apenas isso: Hotel Visual. Dizia um luminoso, cujo efeito de blackout fez desaparecer. Eu quis aplaudir. Mas tinha fortes dores escapulares, alguns nervos fora do lugar, e alguns músculos estavam imobilizados. Preciso descontorcionar o pescoço porque pernas abertas pernoitam, pensei (em escrever). Se eu projetei naquela visão uma reunião de artefatos tão especialmente insubstituíveis, foi por um anseio de extratividade descolado da lógica mecanicista da economia moderna. Foi porque as unhas nasceram assim, em rasgo epistemológico da hepiderme. Epiderme bolhosa essa sob a cobertura do linho. E uma peruca loira na máscara de costas.
É em nome de uma cenografia? É em nome de uma instalação? É assim que se começa a realizar um desejo, em nome de um deslocamento pela invenção do território de desejo? Quem responderia sem arrebentar as conexões entre os membros superiores e inferiores de uma criança... Havia acabado de entrar uma, de mão dada com um responsável. Fiquei pensando enquanto ela chorava. No nível etnográfico que alcançou a incomunicabilidade entre duas pessoas de mãos dadas. Ethos e Etnos, quem degrada quem? O responsável cumpria o seu papel, não fazia nada a respeito. Fazia seguir adiante em direção ao banheiro com o intuito de que ela vomitasse. Ela chorava.
Foram doze horas multiplicadas por quatro de reconsiderações profundas. E não foi o suficiente. Ainda que tenha causado em mim a impressão de uma eterna profunda inversão de possibilidades, posso garantir que não teria sido suficiente nem se aquilo se estendesse ao longo da eternidade. Foram reconsiderações sobre a cenografia, e sobre como os atuantes poderiam se deslocar através dela, alterando irreversivelmente os seus significados. O posicionamento dos corpos, os braços daqueles que são responsáveis por ascensorar as bagagens para cima e para baixo, um deles sinalizando um efeito sonoro, um deles funcionava como deixa. A minha posição de controle, a minha posição de conforto, a minha posição de ponto eletrônico, estava sendo bombardeada.
Límerson
09/12/2011
Curitiba
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
subindo o morro do bela vista
ele também abria a geladeira, dentro de casa, na cozinha. eu o chamo por cima das lanças do portão. quem me atende é o da garagem. eu mostro pra ele quem está na cozinha e pergunto se é possível.
ele também se assustou, imitando o meu susto, da maneira como eu aprendi a me assustar. o dedo traçou uma diferença temporal. entrou em casa. tenho certeza que escutei ele perguntar quem é.
era ele quem voltava até o portão, e respondia por cima das lanças que sim, que era possível. o motor de alguma coisa fazia barulho lá no fundo, eu me senti em casa, vendo do lado de fora.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Se o fade out terminou
Daquele diretor de teatro que daquela vez o dirigia enquanto a morte se aproximava daquela vez, daquele momento em diante portanto bastaria mudar a temporal que a conjugação naturalmente se modificaria, como acontece naquele campo do conhecimento, qual é mesmo o nome daquela cantora, aquela cerveja que vem com bombom dentro, que se arrastava no chão entre os retalhos, eram pedaços de fotografias os lugares reconhecidos, entravam em choque porque enquanto os reconhecia, um líquido quente subia via esófago, quando saía pela boca era fumaça ao redor de entre, ao redor de entre não, subia em refluxo e isso todo mundo conhece, os lugares reconhecidos são suas chuvas de verão, veja os contos de borges que quando reconhecidos em lugares quaisquer costumam tornar-se tormentos
Desde que aquele braço me puxou, aquele braço me puxou, daquele momento em diante, desde que aquilo de me tirar, de que aquilo de uma coisa se transportar não se confunde com uma mudança romanticamente vendável, e se assim posso dizer contraditoriamente confunde-se sim com um vendaval homericamente vendável, eu escutei rangerem os ossos daquele braço que me puxou, eu escutei aqueles estralos fatais facilmente reconhecíveis, ao longo de um tempo, daquele momento em diante, acumularam-se camadas interpretativas, em que ao acumularem-se-me esboçaram esferograficamente uma espécie simples de sofisticação espacial
Desde que o arco investiu-se em suas envergaduras, envergonho-me ainda das minhas primeiras desculpas, mas não é o caso de iludirmo-nos com os benefícios da elucidação, na medida em que aquele arco expressivo se fechou oprimindo os primeiros componenetes que encontrou de um lado, como uma lua, uma porta entreaberta, uma mão entreaberta, e nada mais do que rascunhos em folhas pautadas do grito que desde que aquele instante não encontrava o seu remetente, e não fazia o caminho de volta, na medida em que desde então o arco expressivo encontrou aqueles elementos entre si no seu movimento de envergadura para um lado, distanciou do outro lado quase imediatamente oposto um joelho que já se articulava com dificuldade, um dia inteiro de lástimas no campo das decisões pessoais, junto de uma série de erros pequenos no campo da capacidade de diferenciação, isto é, deixou distantes entre si os elementos componentes do campo da dúvida e as somatizações de angústia sufocadas na indecisão do joelho esquerdo
Ele me viu. E nunca foi tão recorrente. As minhas quedas, no corredor antes da escada, enquanto não chegavam os microfones. Desde que essas camadas se sobrepuseram, desde que aquele arco, desde que isso, desde que aquilo. Ele me viu. Desde sempre, enquanto atravessávamos os morros à pé, enquanto atravessava o astro rei à pé, enquanto atravessava um dos piores pesadelos, à pé, como surgiam os planos mais importantes das nossas vidas para aqueles momentos, aquilo tudo será esquecido como o reflexo ressequido de um último pensamento num ciclo de vida, um último retrocesso a uma crise de sono, que embora tivesse retomado o seu ciclo, não teve corporiedade suficiente para que a espécie mais caricata de olho externo encontrasse satisfação, e consequentemente devolvesse em prazer, em prazer pelo trajeto e as trocas dentro do trajeto, que são pequenos prazeres, dentro de pequenos trajetos
Antes daquela apresentação, desde que houve aquele antes, o que é fundamental para continuarmos de agora em diante, é fundamental que atentemos para isso, o que é importante desde que consideremos o que houve naquele antes, porque daquele momento em diante começavam as primeiras considerações aquele respeito, seguidas das primeiras interrogações ao respeito das considerações, seguidas de que é muito provável, mas sei muito pouco como o faria, que antes daquela apresentação não se sabia como se desculpava pela falta de clareza na proposição como um objeto que se pega, e que desde então quando eu propunha maçã eu não propunha uma maçã que se pegue como uma proposição de um objeto que cairia caso não fosse pego, que o desde então afinal de contas trata disso, de distinguirmos a falta do excesso de clareza, e convivermos com a impossibilidade da visualização absoluta e integral como fundamental aqueles que empiricamente calculam a tendênca térmica no começo de um dia
Como se o que pode ser pego com as mãos, e protegido dos percalços e dos efeitos naturais, fosse decididamente algo mais claro, como se fosse uma questão de uma única pessoa que estivesse decidindo, como se perguntar tantas vezes qual palavra vem antes da que vem depois, e trocar setorialmente ao longo das frases por puro desejo erótico, sadomasoquismo estratégico, como se alguém estivesse tomando decisões, com as mãos no pescoço e diante de uma câmera, com as mãos no rosto e diante de uma câmera entre um diretor e essa pessoa, essa relação de suposição como se estivesse sendo feita por uma pessoa, como se uma única pessoa houvesse entrado ali e pedido a única mousse de maracujá naquele único dia quente dentre os últimos cinco dias, e uma garota saísse da sala incomodada com as cotoveladas investidas contra o tronco ereto, e os estrondos produzidos pelos pés em movimento coordenado com o bater dos pratos contra a parede da esquerda perseguissem essa garota, obrigassem a garota a procurar se distrair com o que tem que fazer enquanto troca dois vernáculos por um final de tarde em silêncio
Complete a frase, complete a frase sem utilizar um palavrão, complete a frase sem repetir a frase, ele me viu desde sempre com os braços no seu sempiterno serpenteio, tentando sufocar o quadril como se fosse o pescoço, porque é pelo quadril que o ar passa, e não pelo pescoço, e aquelas coerções se repetiam tantricamente sobre o trajeto tétrico da serpente, no campo em que os braços inalcançavam, um instante onde a experiência de estar vivo naquele contexto era a única coisa importante, é a única forma de segurarmos entre as mãos como se pudéssemos, a única forma na experiência de uma maçã, uma banana, uma medalha, um amuleto, uma pessoa, um amuleto, uma pessoa, e por aí vai, até que enfim chova, até que enfim o que o vento move finda em fécula, e fenda em morte, e fenda em fécula, complete a frase com uma fruta na boca, e uma garrafa na boca, e uma fenda na lingua, e uma alegoria a oferenda entre cada boca de cada greta
Vocês são os responsáveis, ele diz, olhando para o público, mas apontando para baixo, quase que para a boca de cena, ou talvez a primeira fila, a que foi mais diretamente atingida por perdigotos da frase, e da risada ridícula, porque ele riu depois de dizer aquilo, como se ponderasse toda a importancia castradora e a implicação genital, e toda a implicação social, e toda a implicação cultural, sem chegar necessariamente a conclusão alguma, ele justamente não ia muito ao fundo das questões, nós somos os responsáveis, disse ele, não interrompendo diretamente a risada ridícula, mas através do efeito fade out incidindo sobre o próprio ridículo, numa saída nada sublime, dado que quase antes do riso sair da arcada o queixo tornou-se quadrado, a sobrancelha arqueou a testa arabesca, pálpebras firmes e retomou, vocês são os responsáveis, novos esgares de risos dessa vez ocuparam o lugar da ridícula risada, gargalhou em fade out e voltou sem que o público pudesse se certificar, e ficou no ar a pergunta, qual fade out terminou?
(Essas fotos foram tiradas pela Tamíris Spinelli, durante a apresentação de Penélope Pileata, Núcleo de Espetacularidades, Curitiba, 2011)
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Penélope Pileata - 20/10
Ansioso, Animado e Deprimido por isso que ocorrerá amanhã:O NÚCLEO DE ESPETACULARIDADES APRESENTA AMANHÃ (20/10), NO TEATRO NOVELAS CURITIBANAS, A CENA PENÉLOPE PILEATA, DENTRO DA 7ª Mostra Cena Breve Curitiba ÀS 19H E ÀS 21H (INGRESSOS $3 E $6)
"Dentro do viveiro de Penélope Pileata reina o silêncio. Quando caminha, ela ocupa quase toda a sua jaula no Passeio Público. Exceto o espaço ocupado pela outra Penélope Pileata. Em estado de celebração, uma Penélope se encontra com a outra, promovendo a sua primeira festa de despedida, que coincide com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte"
Penélope Pileata é uma cena performática de Límerson Morales e Ale Galcerán, com Diego Galcerán, Guilherme Marks, Heleno Moura e Clarissa Oliveira.
(mais abaixo uma introdução à uma série de posts sobre a criação)terça-feira, 18 de outubro de 2011
Núcleo de Espetacularidades apresenta “Penélope Pileata”
Introdução às notas de ensaio de “Penélope Pileata”
Performance de Límerson Morales com Ale Galcerán
Duas situações interessantes: Quando o pensamento anda mais rápido que a língua, e quando a língua anda mais rápido que o pensamento! Qual é o pior? O pior é quando o pensamento e a linguagem andam na mesma marcha. Aí começa o tédio!
(Jean Baudrillard)
As experiências mais banais, aquelas do campo mais concreto possível, de onde seria um exagero e até uma limitação tecer considerações metafísicas e transcendentais, são as principais fontes de inspiração do Núcleo de Espetacularidades. O grupo foi fundado em 2006, por acadêmicos de artes cênicas, que tinham em comum a insatisfação com a sua própria condição de acadêmicos da área. Exatamente essa que seria a justificativa mais evidente de terem sido cooptados num grupo de teatro, o fato de estudarem teatro, acabou se confirmando como a mais importante fonte de frustração e de inspiração, ao mesmo tempo, em cada trabalho. Depois de cinco espetáculos escritos e dirigidos por Límerson, dentro do Festival de Teatro de Curitiba em 2009 e 2011, integrando o Coletivo de Pequenos Conteúdos, e as Mostra de Teatro da Fap, o grupo volta ao formato de performance solo na 7a. Mostra Cena Breve Curitiba.
Penélope Pileata é a o trabalho mais recente do grupo, com duração de 15 minutos, podendo ser definido como uma obra performática, que engloba o teatro, a dança e a literatura. Trata-se de um encontro entre um autor e uma fonte de inspiração, ou seja, uma celebração abstrata e figurativa da vida e da invenção da vida, e ao mesmo tempo um pacto com a morte. O autor é o diretor da cena, e a fonte de inspiração é a ave brasileira Jacupiranga, de nome científico Penélope Pileata. Existem duas espécies da ave no Passeio Público de Curitiba. Saindo da CEU um dia desses, após um ensaio frustrado de um trabalho anterior, onde apenas ele teria aparecido, o diretor acabou em paralisia diante da jaula da Jacupiranga. O fato de a ave ser nativa do estado do Pará, associado as idas e vindas do veto e da autorização da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, imprimiu naquele momento posterior ao ensaio malfadado um aspecto inevitavelmente hipnótico. Ouviu o Xingu e o Tocantins: é uma celebração de despedida de P. Pileata, marcando a transição de sua condição natural para a sua condição teatral, isto é, em viveiros, reservas florestais, porta-retratos, caixas cênicas, copa de árvores cenográficas, circustancias, circunstancias, circunstancias...
A transição para a qual a cena aponta, através de menções e circunstancialidades, sempre reflete o estado do grupo, ou o estado oposto, ou o comentário que o diretor sempre acredita ser o comentário definitivo, até que seja encontrado (sem para sempre ainda). Existe uma necessidade de mudança, reavaliação e reinvenção vistas pelo grupo, sobretudo na relação de significado que o teatro estabelece com a sociedade. A burocratização, uma das principais marcas da mais recente geração que vive de teatro, pode estar deixando de lado, por uma questão de incompatibilidade terminológica, um dos fatores mais importantes e caros para a arte, do ponto de vista do grupo. A incompreensão como estímulo artístico, como fonte de inspiração, e como um dos elementos básicos para que ocorra a comunicação. Ao não saber qual nome dar para o que ocorreu naqueles instantes em que ficou paralisado diante da ave, o diretor considerou a incompreensão nesta que foi a primeira nota de ensaios da cena:
"Quando a comunicação deixa de se confundir com incompreensão, no mundo das artes, provavelmente pode estar acontecendo alguma coisa realmente mais perigosa do que a comunicação. O principal alvo de incompreensão, e conseqüentemente a principal fonte de inspiração, no caso do nosso grupo, são as tentativas mais pessoais de organização das experiências banais, as de somenos importância. Tudo o que é da alçada do menor, por exemplo, os atrasos de ensaios, as mudanças de elenco, as alterações constantes de texto e de marcação, os conflitos de egos, vaidades, idiossincrasias, isso que na história da humanidade nunca mudou e sempre teve o seu devido lugar, tudo isso nos é incrivelmente misterioso e fundamentalmente apto para material de cena".
Ingressos $6 e $3

