quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Treinamento


Acabei de ser aprovado no treinamento da facada gratuita no pescoço para participar da humanidade. O corpo da faca vinha atravessando meu pescoço há uns dois anos, mas só agora posso chamar isso com esse nome: uma facada gratuita no pescoço. Pelo menos eu ainda consigo respirar, o que me alivia pois poderei receber meu certificado de participação ainda em vida. Respirar imaginando o rosto familiar que desempenhou esse gesto tão cinematográfico é enriquecedor para o meu currículo. Aliás, é um alívio a forma como esse rosto flutua agora e se desvanece como vapor de água no banho, um rosto que não sabia nem com quantas vogais se fala "faca". Respirar esse rosto familiar e evaporado é um alívio que faz o sangue coagular assim que começa a escorrer da região perfurada. Respirar é gratuito. Meu certificado de participação no treinamento não. O preço é aquilo que acrescentei à experiência da flexibilidade e da resistência humana, mais 10 reais que cobrem a impressão colorida e suas 5 vias. Mas sabe uma outra coisa que é gratuita? A facada que eu levei no pescoço.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Fantasma da Árvore Cortada



Eu pareço hipnotizado nas fotos
O mar que eu vejo 
É um mar perdido
Sem o mar que elas vêem
Pelo seu vir elas ficam paradas
E atrás da fortaleza da fortaleza
Entre as proporções que inclinam ao vento
Pareço estar embaixo da sombra 
Fantasma da árvore cortada.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Os contornos do sentido

Lebanon Havoner
Quando coloco flores nos furos na sua boca é pela tintura que se mistura aos contornos pontiagudos, e porque ela sussurra o que a beleza ensina, costura o que o seu corpo não conhece. Quando toda a minha mão toca a tua barriga pelos contornos pendurados na cintura é porque ela alimenta a fome de seus outros continentes, que tendem a se alimentar só de tijolos e lembranças sem saliva. Quando me arrepio nos seus olhos é porque eles ouvem os contornos esquecidos do seu corpo, então me arrepio até repelir os objetos, para que os seus olhos se assustem e se lembrem de piscar. Quando construo pontes aos seus pés é porque sei que eles despencam como os meus, e atravessando pontes sabemos que a rasteira deve ser dada no momento certo, quando o tropeço está no contorno e a mente está perto do fim da memória. É por isso que engasgo com seu pescoço quando o seu contorno inventado me pega desprevenido, a sua voz atravessa a garganta e infiltra em todos os ouvidos, então engasgo de verdade com as minhas próprias mãos. Esfrego essas frases nas minhas mãos para aquecer o desejo dos olhos, e se isso acalma a cantoria que te contorna em correntes repercussivas é porque o teu corpo queima na invenção do invisível. Acho que foi isso o que quis dizer com "amo as vírgulas da tua cabeça", quando morri como um homem feliz, abraçado ao desfiladeiro entre a sua língua e a sua bunda.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Atravesso Grades



Remedios Varo 

Eu preciso atravessar grades constantemente para te mostrar que o seu pulmão é o seu ímã. E mesmo por baixo da sombra do parafuso da grade aberta, enraizo passo a passo os pés nos telhados em atravessamentos por cima de muros. Prolongando cascas de abacaxi das unhas dos pés das mãos dos membros das membranas embaraçadas em espanhol. Perfurando os derretimentos rígidos em ossos de joelho de vidro. Na verdade, joelhos premonitórios de cristal. Joelho é o Deus do movimento, e Deus é o joelho do movimento. Já vi os porcos estilhaçarem mais de uma vez grunhindo a porcelana contra a parede falsa. Eram tempos favoráveis aos invisíveis daqueles muros faustos inventarem. Os afazeres eram inventados através da energia hidráulica em poços sem fundo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Um contraste secreto

Conforme tive a oportunidade de acompanhar alguma parte do seu cotidiano ao longo desses anos não pude deixar de notar a permanência de um contraste no seu ritmo de vida. A alta velocidade dos seus passos, como um elástico arremessando o próprio estilingue, e a irritante lentidão em todo o resto das atividades. Como se andasse sempre muito rápido de um lugar para o outro justamente para poder demorar quando está parado, trocando uma lâmpada do quarto ou colocando mostarda num sanduíche de tomate, por exemplo. É lento até mesmo para parar de olhar nos olhos quando cumprimenta, o que perturba sempre a pressa dos cumprimentos passageiros, e volta e meia é mencionado nas conversas de corredor. A última que falaram foi que demorou uma semana para abaixar o braço esquerdo depois de um gesto onde usava a mão pra se expressar, os dedos pra cima crepitando tudo que contava com aquele apoio. Naquela semana ele parecia uma fogueira esquecida na praia, dessas com uma tira de fumaça atravessando dias e noites. Dessas que se costuma evitar respirar sob o risco de irritação grave, como a tosse de um hipócrita que achava ele tão bonzinho, mas tossia igual um papel que não termina de ser rasgado. Há uma finalidade secreta nesse contraste que parece ser arrancar o tempo silenciosamente das palavras.

Pesquisar este blog