terça-feira, 16 de agosto de 2016

O desejo do personagem

O personagem não entende quando o corpo ri. Quando o corpo ri o personagem começa a desconfiar, e vai parando de rir com os olhos. O personagem percebe o rumor no corpo rindo, o rumor vindo do ator, que sabe aquilo que o personagem quer. O ator não sabe direito o que ele mesmo quer, o personagem não sabe direito o que ele mesmo quer. O ator sabe o que o personagem quer, mas o personagem não sabe disso. Menos quando o corpo ri, quando o corpo ri ele não entende, mas começa a desconfiar.

vide


video

minha águia toura
eu não finjo
eu mesmo
você destrói
começo
com seu avesso
de sangue

eu agradeço

terça-feira, 10 de maio de 2016

Música prazerosa

O prazer nos escuros da falha
Dilacera os escudos de cera

Desfazer o cerume da fala
Os cabelos ondulam de ombros

Desonestas espumas de sangue
Pelos escombros surdos da sombra

Estes sons desembrulham segundos
De prazer nos estudos do faro


sábado, 2 de abril de 2016

Marcel Duchamp e os sonhos com pátios





Sonho até hoje com o Sesi 358 na Rua Rubens Arruda. Ouço o pátio e os seus muros com altura de buracos, os rumores de saídas antes do horário, os portões para atrasos, os tropeços em escadas. Um conjunto de lembranças que até parece uma serigrafia. Uma impressão cromática implacável, urdida das realizações de Marcel Duchamp. É como grandes casas de concerto poderiam ser através do qual se caminha até o cansaço, até matar a sede incansável. Não há o que fazer com o incansável. Em todo caso estou indo até o bebedouro, deixando bem claro para mim mesmo que eu sou um adolescente cheio de afazeres e dedicação, em meio ao aproveitamento geral da vida, vislumbrado tardiamente quase como um eco. Sempre preferi falar como um saco de batatas, ao contrário do som inalcançável do que se tornou ser um homem. Mas o medo é uma incandescência. A memória é um Waly Salomão de edição. Ainda não adaptei O Ateneu para uma grande instalação sonora, o argumento ainda argonauta. Minto, amo argolas douradas ao longo de gargalhadas de mesa. Mas admito, seria bom nunca ter cobrança. Daria até pra passar fome.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

noite gela



noite amarela inflamada de fora

alimenta de escuta as escoras de cantos

e a palavra levanta uma pata

de cadela tem até uma força

de chamar levando ao baixo.

o fantoche tóxico em novo bruxo

suicida e ressuscita objetos

um para cada personagem e

abriu a boca em tudo e corre

queimadura no céu sanguíneo.

aqui é abafado para sobrevivência

sem nenhum vento inflado de útero

por alguma abertura sem margem

crescendo em mim em cada um


de acordo com a noite hoje gela.

domingo, 8 de novembro de 2015

Ruída


A loja de materiais de construção se instalou lá no alto da montanha suburbana. Igual ao urubu que pousa para inalar a carne podre nas vultuosidades familiares. Uma confusão silenciosa ainda o preocupa, enquanto escuta romper o entulho na caçamba. Ecoando no vácuo até o alto, um castelo sonoro de montanha ruída. Ruída, a pele do tempo, dirigindo caminhões. Nas casas, em suas fontes de pilhas de louça, e chafariz de candelabros reptilianos desligados, acabou a força da preguiça. A lagarta se alimenta de pétalas de retina, cultivando erupções com tímpanos conduzidos na vida nutriente dos amantes. A espinha espeta o cérebro como um escorpião com veneno crânio quando eu digo “eu não tenho como voltar”. Uma parte de larga importância no trabalho e na sua construção é a entrega. Trabalhos de entrega na tarde de isolamento, passeio para ameaçar a insolação da presença daquele sonho: a gestante contorcionista de olhos vendados, o atirador de facas substituto e o mímico de vidro atrasado, quem são? Ruída, a pele do ritmo, dirigindo caminhões para entrega de materiais de construção. 

sábado, 5 de setembro de 2015

Uma crônica de riso

Aquele dia que eu acordei e abri os olhos para todas as coisas que estavam nos mesmos lugares e todas elas estavam em algum lugar. E era no mesmo lugar em que estavam antes do sono, só que elas estavam engraçadas.
A primeira delas foi o teto estúpido do quarto, que eu olhei e comecei a rir. Levantei e fui caminhando até o banheiro, rindo da maneira como o meu corpo se movimentava, como eu ria quando sentia o peso da roupa na pele, e como me equilibrava num deslocamento engraçado pelo espaço. Engraçado foi quando me olhei no espelho, e vi o movimento do meu corpo dando risada. Não era um sorriso diante da vida, que pena. Era uma série de contrações espasmódicas perturbando a respiração, comovendo os músculos faciais, que bom.
Fui tomar um banho frio, e foi um grande erro. Chorei de rir até sentar no ralo. Minhas pernas se mexiam fora do meu controle, como se fossem outras pessoas tendo crises independentes de riso. Consegui desligar o chuveiro, mas antes do silêncio, tudo o que eu escutava era o som da minha gargalhada. Me vesti bem rápido pra não rir dos detalhes vermelhos no azulejo do banheiro que paraciam umas bolinhas de sangue escorrido, que eu poderia ter expelido de tanto que eu ria.
Era uma casa muito engraçada, a que eu morava. Não tinha a memória de nenhuma música consagradora, mas sons de mola e alarmes sugestivos no ouvido. Nas condições em que eu me encontrava qualquer interação humana, animal, vegetal, material e imaterial, provocava em mim esses fluxos de gargalhada.
Toda a inutilidade, toda utilidade, toda ausência de sentido, toda construção de sentido, todas as vozes, todas as formas, todos os gestos, todas as embalagens de todas as essências de tudo, e todo o restante, tudo provocava em mim esse riso de frenesi respiratório. De cuspir perdigotos e lacrimejar quente a potência da vontade.
Eu chorei de rir com a cara na tua barriga, você me abraçou com as pernas para acalmar os espasmos. Continuei rindo de umas contrações e de um leve adormecimento na região da nuca, entre o pescoço e a cabeça (quando eu escuto essa palavra eu dou risada, cabeça). Achei engraçado eu ter retomado o controle da minha respiração, mesmo depois de ter passado por tudo aquilo na sua frente. Todos os nervos estavam em outra frequência. E eu rio até agora quando eu lembro, se eu não relaxar e não ficar atento.

Pesquisar este blog

Carregando...