sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Nas casas não domesticadas


Quando você passa
O pé na minha perna
Tudo para de sair do lugar
Por um tempo terrível e real
Coloco todos meus nervos ali
E as fotografias vão surgindo
Do meio das roupas mofadas
Que se tornaram domingos
Por volta das sete da noite
A ausência de silêncio na beleza
Esconde e cansa a beleza
Quando a palavra “gostoso”
Sai da sua boca pela minha
Convoco todas as glândulas
Cantoras de alguma língua
Lendo textos incompletos
Desses que os músculos pasmam
Movendo membros fantasmas
Ao reconhecimento de vozes
Mas tudo o que sei dos reflexos
Está correndo igual cachorro
Vermelho igual coelho
Nas casas não domesticadas

Por incompletude amorosa.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ESCUTE

não saía nem sangue do buraco na sola do pé. nem em um músculo dentro da pele, nem uma minúscula dor doía. nem dentro e nem além. nem a tensão no pulso direito vinha dali. nem a conversa fiada dos homens de confiança passava por ali. nem uma planta silvestre ou um animal selvagem vigia os seus gestos dali. a terra mesma evita acoplar qualquer apêndice natural naquele furo da sola do calcanhar. tenho mesmo passado os dias a observá-lo, apontando com o dedo de um cão para o que seria uma jaula, e as estrias híbridas de todos os felinos. e esses riscos de todas as épocas, quando reconhecem ou correspondem às pretensões do rosto feminino, que não se especifica da vida ali dentro com somenos importância. não sei se quando se alcança é isso, eu não sei, eu não estou te escrevendo mais. mas escuta você também se o chamado da queda não está vindo dali.

domingo, 6 de agosto de 2017

PROFUNDIDADE



As profundidades da ficção estão vulgarizadas pela noção de uma autoridade preparada para a bofetada. Vamos invaginar as superficialidades. Não falo apenas de poros e halos mais arejados de erosão erógena, mas admito que tudo o que eu disse até agora é atravessado de erosões em desejos desconhecidos, explorados insuficientemente ou inacessíveis em meio ao desfrute das multilateralidades. Cortes aprofundados em segmentos da carne ainda pouco acessados, pele ruidosa de árvore ancestral que brilha tomba brilha. Acordar o furor nos furos e os desdobramentos das palmas das mãos. Mérito, em qualquer instancia, é um palco para bofetadas burlescas. Muita coisa ainda é sobre autoridade e bofetadas burlescas, e ainda estamos pensando assim nisso.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Para o pulmão bater as asas



para o pulmão bater as asas
primeiro:
é preciso ver o pulmão
o pássaro é pulmão
da cabeça aos pés
não silencio sobre isso
não escrevo uma vírgula
se as praças dos bairros
levantam o concreto
encontro das ruas
para o pulmão bater as asas
primeiro:
o amor é um pulmão
sendo respirado
vivo ou morto
não silencia sobre essa
escuta não estrita de escrita
para o pulmão bater as asas
vivo ou morto

(IMAGEM - Miro Spineli )


terça-feira, 20 de junho de 2017

OS PORMENORES VÃO FICANDO CADA VEZ MAIORES

Foto - Marcos Piva


Escrevo sobre uma nova performance, um ato que realizei no dia 17 de Junho, e que até então tenho chamado de Fala Fônica. Apesar disso, não escrevo sobre a performance Fala Fônica, que não foi realizada no dia 17 de Junho. Dia 17 de Junho não aconteceu a performance Fala Fônica. Apesar disso, escrevo sobre o dia 17 de Junho, quando o ato de fala preparado para afiar palavras cegas com palitos de fósforo na boca confundiu-se com um inesperado risco em que esteve em jogo minha integridade física. Mas está tudo bem, foi dia 17 de Junho, já passou. Eu coloquei palitos de fósforo na boca, era um ato que eu ia realizar dia 17 de Junho, chamado Fala Fônica. Mas escrevo sobre o ato que não ocorreu, porque quando eu coloquei os palitos de fósforo na boca um homem surgiu da plateia com um isqueiro e acendeu os palitos. Não deu tempo de dizer nenhuma palavra, não deu tempo de produzir nenhum tipo de reação salivar, a não ser um cuspe final. Essa não foi a performance Fala Fônica, ela não aconteceu dia 17 de Junho. Nesse dia, depois de uma chamuscada no meu cabelo, e um pouco no bigode, e um pouco na mão, eu joguei os palitos de fósforo no chão. Mandei o homem apagar, ele pisava no fogo e dizia "desculpa". Então eu falei aquele texto, sobre afiar palavras cegas em paredes de abismo afogado, e os pormenores vão ficando cada vez maiores. Foi dia 17 de Junho. Depois me perguntaram "era pra aquele cara ter acendido os palitos?", a resposta que eu dei foi "não". Depois me perguntaram "por que você não fez nada?". Não respondi, envergonhado, pois não me parecia previsível que alguém fosse mesmo tentar tacar fogo na cara do performer. Eu realmente não esperava que precisaria me defender desse acontecimento. Lembrei de um stand up do Jim Carrey sobre reagir com SIM à impulsos errados (vejo alguém com uma porção de palitos de fósforo na boca, tenho um isqueiro, VOU ACENDER PRA ELE? SIM). Eu já estou citando textos de stand up comedy. Que situação. De fato, dia 17 de junho, o único elemento que não devia ter aparecido, o fogo, foi o único elemento que apareceu, causando a dúvida de quem teria sido o responsável por aquilo. O performer, ou a irresponsabilidade do performer que não sabia se defender. Afinal de contas, qual é o real? O real é o que nos escapa? Dia 17 de Junho não aconteceu a performance Fala Fônica, aconteceu o que sobrou dela, o som, a fala, o desperdício, a grama queimada, a frustração, a expulsão, o abismo afogado entre o que foi preparado e o que foi experienciado, os destroços de um grupo de teatro, a roda da fortuna. Dia 17 de junho não aconteceu a performance Fala Fônica, aconteceu o que muitas pessoas se perguntaram e me perguntaram se era para ter realmente acontecido, foi o que realmente aconteceu, a risadinha indiferente, a risadinha preocupada, a risadinha com culpa burguesa, o desaparecimento da arte, o desaparecimento do artista, apenas o real.


Foto - Marcos Piva


segunda-feira, 29 de maio de 2017

DOIS PULMÕES



Quando olho para trás não é só olhar para trás. Quando olho para trás depois da despedida, e da esquina com espasmo, e da mania de perseguição, e do culto ao medo que frequento, parece que estou contando com o medo da vingança à altura. Quando olho para trás não é só não olhar para trás. Quando olho para trás estou perseguindo o lugar de onde eu saí, enquanto sigo em frente, tomado por uma fome inesperada. Mas também pelo romantismo de um bandido cinematográfico, conquistando afeições como um cachorro culpado ao lado do rolo de papel higiênico. Você diz que prefere abrir mão, sendo intransigente nesse ponto. Mas, você também faz meus pés segurarem alguma coisa, enrolados em si mesmos como uma língua, procurando a convulsão do próprio gosto. Pensamentos invertebrados rastejam melhor se desmoronam desde o nascimento do derretimento. Dois pulmões, pelas minhas contas, é o nome que eu dei, fazendo cara de quem esqueceu que estava falando com vestígios de que havia um ponto de partida. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

ESCUTA



E aos poucos vou desfazendo as armadilhas, mas deixando sempre o meu rastro, uma baba que escorre das minhas atividades, sobre os destroços das armadilhas. Já destroços: Silêncio, chuva, mãos que seguram como bocas de cadelas, bocas maternas, dedos acariciadores, imaturidade, maturação, e o próprio chão se abrindo em poros, suando dentro de si mesmo, um chão invaginado por baba, vozes escorregadias, trovões que nunca o alcançam, relâmpagos devolvidos. 

Minha cachorra tomando sol de frente para uma telha que ela observava encostada na parede escutou a sua movimentação. Sim, imitador! Ela me contou, leitor imitador. Ela me contou sobre as imitações de leitura. Quando você é muito bom em imitar as outras pessoas você não consegue ser você mesmo. Mas, quando você é muito bom em imitar você mesmo, você não consegue mais mudar. Esquece o que é deixar de ser. Da última vez que me imitaram eu nunca mais fui o mesmo. 

Cantando não. Os pormenores vão ficando cada vez maiores. Eu estava contando as minúcias derramadas. Contendo. Eu estava cada vez mais doente das árvores.

ESCUTA: Existirá um jogo de proporções, um jogo de espelhos entre a latência e a estatura estreita de uma rua? Quando eu desligo tudo o que emite frequência, elétrico, eletrônico, fônico, magnético e magmático... é silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Silêncio interrompendo silêncio com mais silêncio. Mas como é estreita a rua onde todos eles latem. Se cair um pedaço de madeira e bater no portão. Não sei de onde, da infinidade na inquietude da infinidade de uma nova obra. Tudo late até ninguém mais escutar cabeçadas contra o muro. Tem me intrigado esse encanto nebuloso, em choro, berro e latido, o encanto pelo escândalo canino.

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