segunda-feira, 17 de abril de 2017

E AQUI COMEÇO




E aqui começo. Na verdade, desde u m a criança que escrevo. E aqui posso dizer que me considero um escritor que encena os próprios textos, e escreve performando. Cheguei a me formar em Direção Teatral na faculdade, saindo do interior de São Paulo e indo morar em Curitiba, onde tive a sorte de escrever encenando com os artistas mais talentosos daquela cidade, das mentes mais inventivas e das idiossincrasias mais apaixonantes. Minha escrita esteve selecionada, integrando edições de revistas importantes voltadas para a poesia, tais como tantas que você deve(ria) conhecer. Ocorreu que há um pouco mais de dois anos comecei a pôr em ação um plano que desde u m a criança eu tinha, que era o de assumir a função de causador de risada. Plano esse iniciado com o monólogo "Ótima Ideia", cujo vídeo abaixo (ACIMA) anunciava a estreia, e a peça continha muito do que foi parar no programa de TV que provavelmente você viu (se não tem vídeos nessa mesma página de facebook que contém o vídeo acima). Engraçado, me vejo diante de um punhado de ações que não faço ideia de como conciliar, desde as escritas herméticas demais que muitas vezes me silenciam e noutras me fazem cantar e tacar fogo com a garganta de quem foi se aproximando de mim, acreditando que rebolar comigo faria com que as unhas expelissem aquilo que acredito ser uma poesia acerca do som das abelhas, até esse hermetismo virar um palhaço idiossincrático, uma voz com pensamentos engraçados que parecem não estar saindo do corpo que apareceu na tv (dizendo de outra forma, um stand up mais pra pensar, mas que é engraçado também). Não preciso conciliar, afinal de contas "precisar" ainda é uma palavra da qual não assimilo o significado que me é apresentado. Como assim "preciso"? Como assim "não preciso"? Deixei Bauru, deixei Curitiba, deixei o silêncio de quem está me escutando se transformar em risada. Ainda não deixei a risada, ainda não deixei o silêncio, ou Curitiba, ou Bauru. Tenho uma vontade constante de transformação, uma vontade constante de libertação, não adianta eu tentar ir contra essa vontade, é a única coisa que me move. Se eu me movi é porque houve uma vontade de transformação, uma alquimia, um ponto a partir do qual não possa haver retorno. E aqui agradeço, a cada um que possa ter se envolvido nesse percurso, desde os meus pais corajosos aos meus amigos e minhas amigas geniais, desde minhas decepções amorosas a minha companheira de concepções, aos que estão no facebook e aos que não estão, a quem me leu, publicou, indicou, convidou, contactou, contratou, se aproximou, se afastou, minha nossa, essa é a vida, desde u m a criança velhinha que costumo imitar até agora e todos os quandos. Brasil, um país hostil, respondamos com uma arte a altura. Obrigado.

P.S.: Em 2016 publiquei meu primeiro material impresso, chamado Placenta de Prazeres, que pode ser adquirido nesse link diretamente com a editora. Uma etapa que não podia passar despercebida de quem afinal se considera escritor.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Doze segundos


O ônibus passou ralando a janela naquela mesma árvore, mas naquele dia uma folha pulou de um galho e entrou, alojando-se bem no meu ombro esquerdo com o apoio do vento. Era o momento ideal, e o mais propício para semear uma discreta confiança numa espécie arbórea de apadrinhamento, algo de que no fundo eu estava necessitado. Isso porque, diferente dos dias anteriores no mesmo ônibus, ralando a janela na mesma passagem diariamente, a árvore optou por colocar a mão no meu ombro, aquela folha com proporções de meio palmo, o que interpretei como um daqueles tapas encorajadores no ombro, que dizem “vai lá que a titia árvore está torcendo por você”. A folha ficou um tempo no meu ombro, dando-me o aspecto de armadura pela metade. Ao segurá-la não pude evitar a sensação de agradecimento com um olhar meticulosamente invisível. Joguei bem no meio do vento a folha, a essa altura um verdadeiro oferecimento da nação árvore, e tomado por um verdadeiro elevo de gratidão, aceitação, e devolução, e um turvamento de noções claras acerca de origens e objetivos tornava as coisas perigosamente motivadoras. Isso pouco me preocupou, eu já era uma árvore novamente, debruçando meios escudos para encorajar o corpo do vento. Mas isso durou algo como doze segundos. 

Foto - Catharine Elorza
Performance - Memórias Póstumas de Macunaíma (2013)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ONDE


Self Burial With Mirror - Keith Arnatt
Onde
“Pede-se à pele que responda”
Ela repele

Onde
Expulsamos o espelho
Ele está velho

Onde
A pedra ciumenta de vidro
Quebra e só aumenta

Onde
Estouram as bolhas frias
Lágrimas de banho

Onde
A grávida que me olha
Molha a barriga

Onde
A palavra dá seus pulos

Olha a gravidade

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Estação Rodoferroviária de Curitiba

Self burial - Keith Arnatt

Encontro-me com elementos secretos estruturando e desmoronando as minhas atividades, eles estavam inscritos na estação rodoferroviária de Curitiba, uma consequência natural de viagens noturnas. A desorganização não governamental mais libertária para a qual sempre sonhei em servir é tragicamente (e digo tragicamente à princípio ignorando todo fracasso comercial no qual tenho experiência), é tragicamente influenciada pelas obras inacabadas envolvendo melhorias na estação rodoferroviária de Curitiba. A coragem que salvou os meus nervos da intoxicação abre as janelas secretas no quarto invisível onde dorme uma família calorosa e cansada da indiferença e do abandono na estação rodoferroviária de Curitiba, a menina intrigou todo o rosto olhando para mim, como toda criança costuma fazer. A estação rodoferroviária de Curitiba, onde estive preso por não ser do outro país, onde estive preso por não saber amarrar os nós com as duas mãos, onde estive preso pelos pés nos galhos do espelho que dividimos, pelos braços nas grades em que pensamos, pelos olhos no vento cangaceiro que congela, pela língua nos olhos do medo em silêncio. A estação onde rezei com os pés amarrados no trilho, escutando as engrenagens se aproximando cada vez mais, até começarem a se distanciar. Aliás, foi na estação rodoferroviária de Curitiba que eu olhei pela primeira e última vez para os meus pés descalços, nos primeiros segundos antes de morrer com as pernas pra cima, e alguns instantes depois de ter nascido. Os pés tem voz de estação rodoferroviária de Curitiba, dando passos de relógio sem ponteiro, impressionando os segundos disponíveis dos transeuntes que viram no escuro as minhas pegadas bagaceiras. Eu roubei e matei quem me impediu de fazê-lo, acessando o lance branco de escadas da rodoferroviária de Curitiba, enquanto escutava o coro de brinquedo, tomado por sagrado. Mundo, que de vasto não tem nada, na estação rodoferroviária de Curitiba, que de nada não tem vasto mundo. Mundo que devasto não tem nada. Na estação rodoferroviária de Curitiba um mundo que de nome não tem nada. Na estação rodoferroviária de Curitiba escutei relinchar a égua enfumaçada da primavera noturna que amei com os dentes frios na pele. Na estação rodoferroviária de Curitiba a mulher rouca, silenciosa, que entrou com seu cachorro dentro de uma gaiola, tendo colocado ele sobre o seu joelho durante alguns instantes, no banco ao lado do meu na viagem de ônibus acabou de acordar. Caía uma tempestade muscular de relâmpagos, desmoronamentos enredados na era das construções da estação rodoferroviária de Curitiba. Na primeira vez que estive na estação era hora de acordar, abrir as janelas vazias e colocar os frascos alinhados lado a lado, como detalhes de um cajado exposto ao sol, mordendo a madeira com toda sua irradiação dentária. A estação rodoferroviária de Curitiba foi o endereço para o qual escrevi minha última carta incendiada, remetente: consciência do desejo, destino: desejo da consciência. Tudo o que eu falo está com inflamação nas palavras até hoje. Hoje, um homem com olhos assassinos estava de cócoras, encostado no poste de táxi, esperando abrir a porta para guardar as caixas na van branca. Com a lateral do corpo apoiada na parede, uma mulher que esperava o ônibus me observava com intimidade. Como se soubesse da minha preocupação com o homem de olhos assassinos, e esboçasse rir dessa apreensão excessivamente disfarçada. O homem de olhos assassinos entrou na van, e foi embora junto com as caixas que ele havia colocado no bagageiro dela. Poucos minutos depois veio de uma esquina um homem que tinha um vulto no lugar do rosto, os passos atrasados, e uma caixa nas mãos. Quando vi aquela caixa não consegui deixar de pensar com a devida leveza em todos os extravios, exageros, e exasperações de caixas arrastadas no chão da estação rodoferroviária de Curitiba. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Solidão

Ele personificava objetos, 
como a escrivaninha, por exemplo. 
Ele também objetificava pessoas, 
inclusive a escrivaninha que ele tinha personificado. 
Mas não por muito tempo, porque ela era uma escrivaninha muito gente boa. 
E ele era apenas um cortador de unha.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O desejo do personagem

O personagem não entende quando o corpo ri. Quando o corpo ri o personagem começa a desconfiar, e vai parando de rir com os olhos. O personagem percebe o rumor no corpo rindo, o rumor vindo do ator, que sabe aquilo que o personagem quer. O ator não sabe direito o que ele mesmo quer, o personagem não sabe direito o que ele mesmo quer. O ator sabe o que o personagem quer, mas o personagem não sabe disso. Menos quando o corpo ri, quando o corpo ri ele não entende, mas começa a desconfiar.

vide


video

minha águia toura
eu não finjo
eu mesmo
você destrói
começo
com seu avesso
de sangue

eu agradeço

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